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Meloni se afasta de Trump: Fim de aliança ideológica abre novo capítulo na política externa italiana

Meloni traça futuro político longe de Trump após meses de tensões e provocações

A relação entre a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcada por alinhamento ideológico e expectativas de uma interlocução privilegiada, chegou a um ponto de ruptura pública. O que antes parecia uma estratégia promissora para a política externa italiana, agora se revela um obstáculo, forçando Meloni a recalibrar suas alianças e prioridades diplomáticas.

As divergências de interesses entre a Itália e os EUA, as provocações constantes de Trump e a reação do eleitorado italiano criaram um cenário insustentável para a manutenção dessa proximidade. A situação sinaliza não apenas a falência das aspirações de Meloni em manter uma relação privilegiada com Washington, mas também um enfraquecimento da política externa italiana.

Diante deste novo cenário, a Itália dá sinais de que pretende investir no relacionamento com países de média potência, que compartilham o interesse na diminuição da instabilidade global. Essa mudança de rota, conforme apurado por fontes diplomáticas, visa fortalecer a posição italiana no cenário internacional e mitigar os efeitos de potenciais conflitos. Conforme informação divulgada pela fonte original, a tarefa de fazer a interlocução entre Trump e outros líderes europeus tornou-se impossível nos últimos meses.

O Fim de uma Aliança Ideológica

Meloni e Trump compartilhavam afinidades ideológicas em temas como imigração e o combate à chamada “cultura woke”. Essa proximidade remonta a 2019, quando Meloni, ainda líder de um partido minoritário, participou da CPAC, conferência de conservadores nos EUA, onde Trump era a principal estrela. O alinhamento se intensificou quando Trump foi eleito pela segunda vez à Casa Branca em novembro de 2024, coincidindo com o segundo ano de um governo estável de Meloni na Itália.

A premiê italiana foi a única líder europeia presente na cerimônia de posse de Trump em janeiro de 2025 e, em abril do mesmo ano, foi recebida na Casa Branca com elogios por seu trabalho. No entanto, o entusiasmo inicial deu lugar a divergências em temas como tarifas comerciais e gastos com defesa, que se agravaram com o ataque de Israel e EUA ao Irã no final de fevereiro.

Tensões e Divergências Amplificam o Afastamento

O ataque ao Irã expôs o mal-estar entre Meloni e Trump. Enquanto o ex-presidente americano cobrava a colaboração dos aliados da OTAN, a Itália, prejudicada pelo aumento dos preços da energia, se distanciou da iniciativa militar. A Itália chegou a **não permitir que aviões americanos utilizassem uma base na Sicília**, uma clara demonstração de discordância.

As declarações de Trump contra o Papa Francisco em abril, que apelava diariamente pelo fim do conflito, foram consideradas inaceitáveis por Meloni, tornando o choque entre os dois líderes explícito. Segundo Leo Goretti, especialista em política externa italiana, a derrota de Meloni em um referendo judicial, ocorrido semanas após a ação no Irã, foi interpretada como um sinal de dissidência do eleitorado em relação a uma líder vista como muito próxima de Trump.

Reação do Eleitorado e Estratégia Política

Goretti explica que Meloni precisou tomar distância de Trump para responder ao eleitorado. “O resultado do referendo foi entendido como uma manifestação de dissensão de parte do eleitorado em relação a uma líder vista como muito próxima de Trump”, afirmou. “Meloni teve que tomar distância, e sabemos que o presidente dos EUA não gosta de ser contrariado.”

Essa contrariedade evoluiu para insultos públicos. Trump acusou Meloni de implorar por uma foto durante o G7 na França, o que ela negou, chamando de “história inventada”. Posteriormente, ele insinuou que precisava se proteger da “perseguição” da italiana. Meloni, em 8 de julho, declarou que “não se arrepende de nada” sobre o “investimento político” feito com Trump, justificando-o pela “convicção na unidade do Ocidente”.

Novo Foco na Política Externa Italiana

A oposição italiana criticou a “estratégia fracassada de subalternidade” a Trump. Elly Schlein, líder do Partido Democrático, apontou “muitos erros de política externa deste governo”. Goretti complementa que, com a eleição de Trump, a política externa italiana se tornou “muito opaca”, gerando uma situação paradoxal de ter um “referência ideológica” na Casa Branca que, na prática, prejudica a Itália.

A Itália busca agora uma arquitetura multilateral forte, uma relação de segurança sólida com os EUA e uma integração europeia robusta, áreas em que Trump atua na direção contrária. Para os próximos meses, a diplomacia italiana deverá atuar para interagir mais com potências médias, como países do Golfo (Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Qatar), além de aliados como Canadá, Austrália e Japão. “Todos esses países, com suas diferenças, têm em comum o fato de que não se beneficiam de nenhum jeito da desordem global”, ressalta Goretti.

Pressionada por seu partido, que tem posições mais à direita, Meloni pode adotar um discurso mais radical contra a União Europeia, especialmente com as eleições parlamentares se aproximando. “Espero uma oscilação entre ataques ocasionais, tomadas de posição polêmicas contra a burocracia europeia, e uma atitude mais transacional na prática, na qual se busca um entendimento”, conclui Goretti, antecipando uma postura ambígua da premiê italiana.

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