Dolores Huerta, ícone da luta por direitos trabalhistas nos EUA, falece aos 96 anos
Dolores Huerta, uma das figuras mais importantes na luta pelos direitos dos trabalhadores rurais nos Estados Unidos e cofundadora do sindicato United Farm Workers (UFW), morreu nesta quarta-feira (28), aos 96 anos. A notícia foi confirmada por sua família, que informou que a causa do falecimento foi câncer. Huerta faleceu em sua casa em Bakersfield, na Califórnia.
Ao longo de sua vida, Dolores Huerta dedicou-se incansavelmente à defesa dos mais vulneráveis. Ao lado de Cesar Chavez, ela foi a força motriz por trás de greves e boicotes que, nas décadas de 1960 e 1970, transformaram a vida de trabalhadores agrícolas na Califórnia. Sua atuação foi fundamental para a sindicalização desses trabalhadores e para a aprovação de leis trabalhistas mais justas.
O ativismo de Huerta transcendeu a luta trabalhista, tornando-a uma referência na defesa dos direitos de imigrantes e mulheres. Sua trajetória a consagrou como uma heroína popular, especialmente entre a comunidade mexicano-americana. Conforme informação divulgada pela família, a causa do falecimento foi câncer.
Uma Vida Dedicada à Luta e à Organização
Por quase quatro décadas, Dolores Huerta ocupou o cargo de vice-presidente do UFW. Até a morte de Cesar Chavez em 1993, ela era sua braço direito na hierarquia do sindicato. Enquanto Chavez era conhecido por seu carisma e liderança inspiradora, Huerta era a habilidosa organizadora, responsável por coordenar greves, boicotes e negociar contratos pioneiros com grandes empresas do agronegócio.
A relação entre Huerta e Chavez, no entanto, guardava um aspecto sombrio. Em relatos posteriores, Huerta revelou ter sido vítima de estupro por parte de Chavez. Ela manteve este segredo por décadas, temendo que a revelação pudesse prejudicar o movimento. Apenas em 2026, em entrevista ao The New York Times, ela compartilhou sua experiência em meio a evidências de que Chavez também teria assediado e abusado sexualmente de menores.
“Eu o via, novamente, como meu chefe, como meu herói, como, você sabe, alguém que faria o impossível”, declarou Huerta sobre Chavez. “Nunca contei a ninguém, e a razão foi que simplesmente não queria prejudicar o movimento.”
Estratégias Não Violentas e Luta Constante
Inspirada pelas táticas de Martin Luther King Jr., Dolores Huerta e Cesar Chavez adotaram estratégias de luta não violenta e desobediência civil. Huerta foi presa 22 vezes, sofreu agressões de trabalhadores contratados para quebrar greves e, em uma ocasião, foi espancada por um policial. Sua resiliência diante da adversidade era notável.
Apesar de ser mãe de 14 filhos, Huerta conciliava a vida familiar com o ativismo de forma extraordinária. Ela frequentemente trocava fraldas entre reuniões e amamentava seus bebês durante intervalos de negociações. Seus filhos cresceram em um ambiente de constante movimento, muitas vezes hospedados por amigos e apoiadores, e se tornaram profissionais bem-sucedidos em diversas áreas.
Legado de Influência e Reconhecimento
Dolores Huerta também foi uma defensora ferrenha dos direitos dos imigrantes e das mulheres. Ela manteve fortes laços com políticos progressistas, como o governador da Califórnia, Jerry Brown, e o senador Robert F. Kennedy, cujo assassinato ela testemunhou. Em 2012, o presidente Barack Obama a condecorou com a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil dos Estados Unidos, um reconhecimento por sua vida de dedicação à justiça social.
A fundação da National Farm Workers Association em 1962, por Chavez e Huerta, foi um marco. Com recursos limitados, eles sonhavam em criar uma organização que pudesse amparar trabalhadores rurais migrantes, submetidos a jornadas extenuantes, salários irrisórios e instabilidade. A organização também se propôs a combater os abusos de grandes produtores agrícolas.
“As pessoas achavam que éramos loucos”, relembrou Huerta em declaração ao The Salt Lake Tribune. No entanto, em 1965, o sindicato já contava com 1.200 membros e força suficiente para se unir a trabalhadores filipinos em uma greve contra produtores de uvas de mesa. O movimento ganhou visibilidade e apoio, inclusive de Robert F. Kennedy, que participou de um ato em Delano, na Califórnia, em 10 de março de 1968, declarando: “O mundo precisa saber que o trabalhador rural migrante, o mexicano-americano, está conquistando seus direitos”.
Origens e Influências Familiares
Dolores Clara Fernández nasceu em Dawson, Novo México, em 10 de abril de 1930. Sua mãe, Alicia Chávez Hernández, e seu pai, Juan Fernández, um líder sindical e político, moldaram sua visão de mundo. Após o divórcio dos pais, Dolores e seus dois irmãos foram criados pela mãe e pelo avô em Stockton, Califórnia.
Sua mãe, que trabalhou em diversas funções, desde garçonete até cozinheira, chegou a administrar um hotel onde frequentemente oferecia hospedagem e alimentação a trabalhadores migrantes. “Minha mãe era uma mulher forte e não favorecia meus irmãos”, relatou Huerta em entrevistas posteriores. “Não havia a ideia de que os homens fossem superiores. Em casa, todos dividíamos igualmente as tarefas domésticas.”
Formada pela Stockton High School em 1947, Huerta obteve um certificado para lecionar e trabalhou como professora. Contudo, deixou a profissão frustrada pela situação de crianças que chegavam à escola com fome e descalças. “Eu não suportava ver crianças chegarem à sala de aula com fome e precisando de sapatos”, disse ao The San Diego Union-Tribune.
Huerta casou-se com Ralph Head, com quem teve duas filhas antes de se divorciar. Posteriormente, casou-se com Ventura Huerta, pai de mais cinco filhos, mantendo seu sobrenome após a separação. Teve ainda outros quatro filhos com Richard Chavez, irmão de Cesar Chavez, com quem manteve uma união estável por muitos anos. Dolores Huerta deixa um legado de 13 filhos, 24 netos, 23 bisnetos e sete tataranetos.





