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Museu Palestino Digitaliza História para Sobreviver à Guerra, Criando Arquivo “Indestrutível”

Museu Palestino Investe em Arquivo Digital “Indestrutível” para Preservar História em Meio à Guerra

O diretor do Museu Palestino, Amer Shomali, assumiu o cargo em 3 de outubro de 2023, na Cisjordânia. Poucos dias depois, o início da guerra em Gaza transformou sua missão. Ele precisou lidar com o risco de que as instituições culturais palestinas fossem apagadas, um cenário preocupante diante de ataques que já destruíram escolas, universidades e sítios arqueológicos.

Em resposta a essa ameaça, Shomali dedicou seu mandato a fortalecer o projeto de digitalização do museu. O objetivo é criar um arquivo eletrônico que ele descreve como “indestrutível” e “insaqueável”, garantindo a preservação da história da Palestina, pelo menos no ambiente virtual.

O arquivo digital do Museu Palestino existe desde 2018, mas ganhou urgência com o conflito. Conforme informação divulgada na reportagem, o plano é assegurar que a rica história palestina seja guardada nas nuvens, longe da destruição física. O Museu Cultural de al-Qarara, em Gaza, com milhares de objetos, foi alvo de bombardeios logo nas primeiras semanas da guerra. Uma equipe conseguiu resgatar e digitalizar cerca de 1.800 itens antes que um segundo ataque destruísse suas instalações e vitimasse dois funcionários.

Um Legado Ameaçado e a Luta Contra o Apagamento Histórico

A preocupação com a preservação da história palestina não é nova. Há décadas, palestinos acusam o governo israelense de tentar apagar sua história, citando a destruição de vilarejos durante a criação de Israel em 1948 e o saque de artefatos. Shomali relata que, em 1967, relíquias como sarcófagos da Idade do Bronze de Deir al-Balah foram levadas de Gaza por Israel, com alguns objetos adquiridos pelo renomado comandante israelense Moshe Dayan.

Após a morte de Dayan, sua viúva vendeu parte das relíquias ao Museu de Israel, mas alguns itens continuam a aparecer em sites de leilão, atribuídos à coleção de Dayan. O Museu Palestino conseguiu adquirir alguns desses artefatos, como uma ânfora da Idade do Bronze comprada por cerca de R$ 2.000, que veio com certificado e a assinatura de Dayan. Essa situação levanta um debate sobre a segurança de manter museus na Palestina, pois a possibilidade de saques por Israel pode desencorajar empréstimos de objetos.

Desafios da Fragmentação Geográfica e a Força do Arquivo Digital

Além da ameaça de destruição, instituições como o Museu Palestino em Birzeit enfrentam o desafio da fragmentação territorial sob controle palestino na Cisjordânia. A área é dividida por assentamentos e postos de controle, dificultando o acesso do público. Shomali observa que “um morador de Belém pensa dez vezes antes de sair de casa para visitar o museu”, o que resulta em poucas visitas presenciais a um acervo físico limitado.

É nesse contexto que o arquivo digital se torna crucial. A equipe do museu visita residências para coletar imagens e objetos, que são fotografados e devolvidos aos proprietários. Atualmente, centenas de milhares de itens já foram digitalizados, permitindo a construção da “história vista de baixo”, como a chamam pesquisadores. Ao alimentar o arquivo com coleções familiares, o museu possibilita uma reflexão histórica que transcende a perspectiva estatal.

Preservação da Identidade e Soberania Cultural na Diáspora

O arquivo virtual também recebe contribuições da diáspora palestina. Embora em menor número, essas doações ajudam a expandir o acervo. Um exemplo é um telegrama de uma delegação brasileira em um congresso de mulheres palestinas em Túnis, em 1985. Para Shomali, o museu digital representa uma questão de “soberania sobre a própria imagem”, capacitando os palestinos a influenciar sua representação e a narrativa de sua história, afirmando “É nossa cultura, nossa identidade.”

Para garantir a sobrevivência dessa coleção, cópias digitais são distribuídas globalmente em cofres de bancos, embaixadas e residências particulares. “Mesmo que os israelenses bombardeiem o museu em Birzeit, o arquivo vai sobreviver”, assegura Shomali, “Ainda que a gente talvez não sobreviva.” Essa estratégia demonstra a determinação em preservar a memória cultural palestina, custe o que custar.

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