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Nova Diretriz para Gestantes: Alterações no Tratamento da Tireoide Podem Evitar Medicamentos Desnecessários

Gestantes com anticorpos tireoidianos positivos e função normal da tireoide não precisarão mais de tratamento hormonal preventivo, segundo novas diretrizes.

Uma importante atualização nas recomendações para o acompanhamento da tireoide durante a gestação promete trazer mais clareza e precisão no tratamento de futuras mães. As novas orientações, divulgadas pelas Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, indicam que gestantes com anticorpos tireoidianos positivos (anti-TPO), mas com a função da tireoide em níveis normais, não devem mais receber levotiroxina como medida preventiva.

Essa mudança se baseia em três grandes estudos recentes que comprovaram a ausência de benefícios na redução de riscos como abortamento ou parto prematuro com o uso do hormônio nesses casos. A decisão segue a diretriz publicada pela Associação Americana da Tireoide (ATA) em junho deste ano, que atualiza as recomendações após quase uma década desde o último guia, de 2017.

A comunicação oficial sobre as alterações ocorreu em um painel no 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, no Rio de Janeiro. O objetivo é otimizar o cuidado, evitando a prescrição desnecessária de medicamentos e focando o tratamento em quem realmente necessita, conforme informações divulgadas pelas sociedades médicas.

Fim da Terapia Preventiva em Casos Específicos

O novo posicionamento brasileiro estabelece que gestantes com o exame anti-TPO positivo, mas com níveis normais de TSH e T4 livre – hormônios essenciais para o metabolismo – não devem iniciar o uso de levotiroxina sintética. Essa medida visa tratar apenas as condições que comprovadamente afetam a saúde materna e fetal, sem a interferência de tratamentos preventivos sem eficácia demonstrada para esses casos.

Apesar de não haver indicação de tratamento hormonal nestas situações, o acompanhamento da função tireoidiana continuará sendo realizado. Estudos indicam que mulheres com anti-TPO positivo têm um risco aumentado de desenvolver hipotireoidismo ao longo da gestação, o que justifica o monitoramento contínuo.

Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, explica que a presença do anticorpo positivo indica apenas uma predisposição. “Se os [hormônios] TSH e o T4 livre estão normais, a mulher é considerada eutireoidiana e não há benefício comprovado em usar levotiroxina, apenas pela gestante ter o anticorpo positivo”, afirmou.

Hipotireoidismo Subclínico: Foco no Início da Gestação

Outra atualização importante refere-se ao tratamento do hipotireoidismo subclínico, condição em que o TSH está elevado, mas o T4 livre permanece normal. O início do tratamento com levotiroxina para TSH entre 4,0 e 10 mUI/L agora se concentrará no primeiro trimestre da gestação.

Especialistas ressaltam que as primeiras 12 semanas de gravidez são cruciais para o desenvolvimento fetal, pois o bebê depende significativamente do hormônio tireoidiano materno. Identificar e tratar o hipotireoidismo subclínico nesse período é fundamental para garantir o desenvolvimento adequado do feto.

Caso o hipotireoidismo subclínico seja diagnosticado apenas no segundo ou terceiro trimestre, a orientação geral é apenas monitorar a função tireoidiana, sem iniciar a levotiroxina, a menos que o TSH ultrapasse 10 mUI/L. Essa abordagem busca evitar o uso de medicação sem benefício comprovado em fases posteriores da gestação.

Rastreamento e Fatores de Risco: Uma Abordagem Brasileira

O Brasil optou por manter a estratégia de rastreamento precoce de todas as gestantes desde o início da gravidez, diferentemente da diretriz americana que sugere um rastreamento seletivo baseado em fatores de risco. Essa decisão visa garantir que nenhuma gestante com necessidade de tratamento seja deixada de fora.

Apesar de a diretriz internacional focar em fatores como idade materna, obesidade e número de gestações anteriores, especialistas brasileiros apontam que esses critérios isoladamente não são precisos o suficiente para identificar todas as disfunções tireoidianas. “São características muito frequentes na população e, portanto, têm baixo poder para selecionar adequadamente quem deve ser investigada”, comentou um especialista.

A nova diretriz brasileira atualiza os fatores de risco para rastreamento mais específico, mantendo histórico de doenças tireoidianas, cirurgias prévias, doenças autoimunes como diabetes tipo 1, histórico familiar, infertilidade, abortamentos recorrentes e uso de medicamentos que afetam a tireoide. A inclusão de outros fatores como idade, obesidade e número de gestações foi revista por sua baixa especificidade.

Reavaliação do Exame e Atenção ao Iodo

Uma das recomendações internacionais sugere repetir o exame de TSH após uma a três semanas antes de iniciar o tratamento, considerando que alterações leves podem ser transitórias na gestação. No entanto, as sociedades médicas brasileiras recomendam não aguardar esse período, priorizando a agilidade no diagnóstico e tratamento, especialmente em um sistema de saúde onde o retorno rápido nem sempre é garantido.

“No Brasil, em um sistema em que nem sempre é possível garantir retorno rápido, esperar pode significar perder a janela de oportunidade para o tratamento”, explicou Cleo Mesa Júnior. Essa abordagem garante que o tratamento seja iniciado o mais breve possível, quando necessário.

Em relação ao iodo, essencial para a produção hormonal da tireoide, a diretriz internacional orienta a suplementação antes da concepção. No Brasil, a suplementação de iodo não é recomendada para todas as gestantes, sendo individualizada para mulheres com risco de ingestão insuficiente, como em dietas restritivas ou veganas, ou em casos de má absorção. Nesses cenários, pode-se considerar a suplementação de 100 a 150 microgramas de iodo por dia.

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