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ONG Revela Conexões do PCC com Tráfico Humano e Golpes Virtuais no Camboja; Vítimas Relatam Intimidação

ONG brasileira expõe elos entre PCC e redes de tráfico humano no Camboja, onde vítimas são forçadas a aplicar golpes eletrônicos. Relatos apontam uso da facção como forma de intimidação e controle.

Um complexo de seis prédios em Phnom Penh, capital do Camboja, que abrigava vítimas de tráfico humano para a aplicação de golpes eletrônicos, apresenta conexões com o PCC (Primeiro Comando da Capital). A informação foi divulgada pela ONG The Exodus Road Brasil, que atua no combate ao tráfico de pessoas.

Segundo a organização, que é membro observador do grupo de especialistas em crimes da Interpol, as vítimas resgatadas relataram ter vivenciado uma rotina onde pessoas associadas à facção paulista estavam presentes. Esses depoimentos foram cruciais para a conclusão da Exodus Road sobre a atuação transnacional dessas redes criminosas.

As vítimas, de diversas nacionalidades, eram mantidas em condições precárias, com grades e arames farpados para impedir fugas, e forçadas a realizar golpes virtuais. A ONG destaca que o tráfico humano deve ser compreendido como parte de uma engrenagem maior do crime organizado, que utiliza técnicas sofisticadas de engenharia social. Conforme divulgado pela Exodus Road Brasil, combater essa prática exige entender como essas organizações operam para interromper a cadeia antes que novas vítimas sejam capturadas.

Estrutura de Golpes e Intimidação no Camboja

Os apartamentos, com cerca de 40 m², serviam como base para a aplicação de golpes eletrônicos. Criminosos, muitos deles brasileiros, se passavam por agentes públicos, como policiais federais, militares e civis, para enganar vítimas em seus países de origem. Promessas de altos salários, acomodação e passagens aéreas atraíam as pessoas, que ao chegarem ao Camboja, tinham sua liberdade cerceada.

As vítimas eram submetidas a jornadas exaustivas e, frequentemente, torturadas caso não atingissem as metas estabelecidas. Relatos indicam que gerentes das operações frequentemente mencionavam o PCC, afirmando ter vínculos com a facção e o poder de ordenar agressões e assassinatos. Um sobrevivente descreveu ter visto fotos de um gerente ao lado de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC.

Em outros casos, o nome da facção era usado como forma de pressão psicológica. Ameaças como “A gente só precisa fazer uma ligação para os irmãos aparecerem para a sua família no Brasil” eram comuns, segundo Pedro Alencar, 25, que passou por centros de exploração em diversos países asiáticos.

Anistia Internacional Corrobora Relatos

O mesmo endereço mapeado pela Exodus Road Brasil aparece em um relatório da Anistia Internacional sobre a indústria de golpes no Camboja como um “complexo confirmado”. A organização baseia sua classificação em depoimentos de sobreviventes e visitas de pesquisadores.

A Anistia Internacional observou que a menção ao PCC não surgiu espontaneamente nos depoimentos, sugerindo que a facção pode ter sido mencionada de forma estratégica. O relatório de junho de 2025 avalia que o complexo foi projetado para impedir fugas, com infraestrutura que reforça a ideia de privação de liberdade.

Crescimento dos Golpes e Investigação Policial

A indústria de golpes virtuais no Sudeste Asiático, que ganhou força durante a pandemia de coronavírus, tem crescido em paralelo com o aumento dos registros de fraudes no Brasil. A maior digitalização da economia no período impulsionou essas atividades criminosas.

A Polícia Federal investiga o envolvimento do PCC em golpes do tipo desde pelo menos 2023, quando identificou os chamados “escritórios do crime” no Brasil. Essas estruturas, montadas para aplicar golpes por aplicativos de mensagem e telefonemas, demonstram uma economia criminal integrada, com estrutura empresarial e financiamento faccional.

O “golpe da Anatel”, por exemplo, identificado pela PF no Brasil, é uma das estratégias relatadas por vítimas no Camboja. Criminosos ligam para pessoas insatisfeitas com serviços de telefonia para extrair dados sensíveis e, posteriormente, roubar as vítimas ou induzi-las a ações fraudulentas.

Operações Internacionais e Desafios

Em junho, a Polícia Federal participou da operação Global Chain, em 59 países, que desarticulou uma rede responsável por levar vítimas ao Camboja. A operação identificou 406 vítimas, sendo 83 brasileiras e 323 estrangeiras.

Apesar dos esforços internacionais, a PF não tem previsão de abrir uma adidância no Sudeste Asiático, o que dificultaria a interlocução direta com autoridades locais. A colaboração internacional é vista como essencial para combater essas redes transnacionais de tráfico humano e golpes virtuais, que se mostram cada vez mais sofisticadas e integradas.

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