Papa Leão 14 inicia turnê na América do Sul, enfrentando radicais e reconectando-se com seu passado.
O Papa Leão 14 embarca em uma intensa jornada de 11 dias por três países sul-americanos: Uruguai, Argentina e Peru. A viagem, realizada menos de um mês após a remoção de um tumor pulmonar, demonstra a resiliência e a determinação do pontífice, desafiando expectativas de quem poderia imaginar uma fragilidade por trás de sua fala mansa.
Esta visita, no entanto, transcende a mera demonstração de força. A escolha dos destinos não é aleatória e carrega consigo múltiplas camadas simbólicas e práticas. A comitiva papal planejou uma agenda que funciona simultaneamente como um espelho dos desafios atuais do papado, um retorno triunfal de um filho à sua terra e uma forma de honrar compromissos deixados por seu antecessor, o Papa Francisco.
A jornada de Leão 14, conforme divulgado por fontes ligadas à comitiva papal, promete ser um retrato vívido das complexidades enfrentadas pela Igreja Católica e pelo próprio pontificado em um mundo em constante transformação. Acompanhe os desdobramentos desta importante visita.
Um Retorno ao Passado e o Legado de Francisco
Um dos pontos centrais da viagem é a visita à Argentina, país natal do Papa Francisco. Jorge Bergoglio, o primeiro papa argentino, nunca retornou ao seu país após assumir o pontificado em 2013. As razões para essa ausência nunca foram totalmente esclarecidas, mas cabe agora a Robert Prevost, o Papa Leão 14, como seu sucessor, de certa forma, ‘pagar’ essa dívida simbólica.
Leão 14 tem mantido, em grande parte, a agenda estabelecida por Francisco. Uma prioridade é o encontro com comunidades pobres, aquelas afetadas pela que Francisco chamava de ‘globalização da indiferença’. No Uruguai, o pontífice visitará um bairro de Montevidéu conhecido por sua alta taxa de criminalidade, um cenário desafiador que reflete a preocupação papal com os mais vulneráveis.
Outro compromisso herdado é a aliança da Igreja com os povos tradicionais da Amazônia, em prol do ‘cuidado com a casa comum’. No Peru, Leão 14 se reunirá com missionários e indígenas em Pucallpa, uma região de floresta tropical, reforçando o compromisso com a preservação ambiental e os direitos dos povos originários.
Revisitar Raízes e Encarar Antagonistas
A geografia peruana, com sua diversidade de paisagens, também será palco de encontros significativos. Além da Amazônia, o papa visitará Lima, na costa, e Cusco, nas montanhas andinas, antiga capital do Império Inca. Prevost, naturalizado peruano, tem laços profundos com o país, onde atuou como missionário agostiniano e bispo de Chiclayo.
O reencontro em Chiclayo, onde ele viveu até três anos atrás, deve ser marcado por um clima de acolhimento. Contudo, para setores conservadores da Igreja peruana, a atuação de Prevost no passado, especialmente na gestão de acusações de abuso no movimento Sodalício de Vida Cristã, pode gerar controvérsias.
A viagem também coloca Leão 14 frente a frente com o crescimento da direita radical na América do Sul. Na Argentina, ele encontrará Javier Milei, e no Peru, Keiko Fujimori. Ambos os líderes chegaram ao poder impulsionados por ondas conservadoras que, ironicamente, também tornaram Leão 14 um de seus antagonistas globais.
O Desafio da Secularização no Uruguai
Um dos cenários mais emblemáticos da viagem será o Uruguai, a nação menos cristã da América do Sul. Com quase metade da população se declarando ‘não religiosa’, e um número decrescente de batismos, o país apresenta um desafio significativo para a Igreja. Em 2025, apenas 2.200 de 30 mil bebês nascidos no Uruguai foram batizados.
Este cenário de secularização não é tão distante da França, conhecida por seu forte secularismo. Apesar disso, o papa foi recebido com honras em sua visita anterior ao país europeu, demonstrando que o alcance da mensagem papal pode transcender as afiliações religiosas formais. A visita de Leão 14 ao Uruguai será um teste para a Igreja em um contexto de crescente indiferença religiosa.





