Papa Leão XIV desafia prognóstico e inicia extensa viagem pela América Latina, um reduto católico estratégico para a Igreja.
Menos de um mês após receber o diagnóstico de câncer de pulmão, o Papa Leão XIV, de 71 anos, iniciou nesta sexta-feira (6) a mais longa viagem de seu jovem pontificado. O destino é a América Latina, região considerada um bastião do catolicismo e onde o líder religioso viveu por quase 20 anos.
A odisseia, que se estende até 17 de novembro, inclui aproximadamente 47 horas de voo, 15 cidades em três países: Uruguai, Argentina e Peru. Espera-se que o Papa reúna multidões em estádios e celebre nove missas durante a jornada.
Os planos da viagem, originalmente suspensos em 13 de outubro devido ao diagnóstico de câncer de pulmão após a cirurgia para retirada de um nódulo, foram mantidos inalterados. Exames posteriores confirmaram que o tumor era localizado e que a remoção do lobo inferior do pulmão seria suficiente, dispensando tratamentos adicionais.
Apesar da saúde fragilizada, o Papa não só manteve as datas como também não alterou o itinerário divulgado em setembro. O tour prevê viagens quase diárias, deslocamentos de helicóptero e uma passagem de pouco mais de três horas em Cusco, cidade peruana nos Andes, a mais de 3.400 metros de altitude, que exige boa capacidade respiratória.
América Latina: Um pilar católico em transformação
A importância da América Latina para a Igreja Católica é inegável, abrigando uma parcela significativa de fiéis. Dados do Anuário Pontifício 2026, com informações de 2024, indicam que as Américas concentram 47,7% da população católica mundial, mesmo diante do crescimento de evangélicos, ateus e agnósticos.
O Brasil, por exemplo, viu sua população católica cair de 61% em 2013-2014 para 46% em 2024, segundo pesquisa do Pew Research Center. Essa retração em um país de forte tradição católica demonstra a dinâmica religiosa em curso na região.
Motivações da visita papal: Fé, história e simbolismo
O teólogo Valdinei Ramos Gandra, doutor em teologia pela PUC-PR, sugere que o longo intervalo desde a última visita papal a alguns desses países pode ter influenciado a escolha. O Papa João Paulo II visitou o Uruguai em 1988, e a Argentina não recebeu Francisco, que esteve no Brasil em 2013.
Gandra aponta também para a dimensão política e simbólica das disputas ideológicas na América Latina. Ele menciona que uma visita papal após eleições poderia ser interpretada como apoio político, especialmente com a participação de parte do clero católico nas disputas recentes.
O teólogo se refere a manifestações como a mensagem da CNBB às vésperas do segundo turno no Brasil, pedindo intercessão por Nossa Senhora Aparecida e defendendo a Constituição e o Estado Democrático de Direito. A Igreja Católica, em sua habitual discrição, evitou mencionar candidatos específicos.
O Papa e os desafios contemporâneos
Essa mesma discrição deve pautar a visita do Papa Leão XIV à América do Sul. O pontífice, que historicamente votou nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, já declarou que a associação entre posições de extrema direita e certas expressões religiosas não representa o cristianismo autêntico.
Na Argentina de Javier Milei, o Papa visitará uma prisão. No Peru de Keiko Fujimori, rezará a primeira missa presidida por um papa na Amazônia peruana. Essas ações reforçam o compromisso da Igreja com os mais vulneráveis e com a proteção ambiental.
Conforme Gandra, a Igreja Católica, com quase 2.000 anos de história, possui um patrimônio intelectual e institucional que continua sendo uma referência importante em diversas esferas sociais. Ela se mantém como uma voz relevante através de articulações diretas com lideranças e da publicação de documentos sobre temas atuais.





