Saxônia-Anhalt: O Legado Socialista e o Crescimento da Extrema Direita na Alemanha
A Alternativa para a Alemanha (AfD) vive um momento de forte ascensão, especialmente em estados do leste alemão, como a Saxônia-Anhalt. Com propostas que incluem a deportação de imigrantes e o retorno a moedas nacionais, o partido pode até mesmo governar a região sem coalizões, segundo pesquisas recentes. Um deputado estadual da AfD atribui esse crescimento a fatores históricos e econômicos ligados ao passado socialista da Alemanha Oriental (RDA).
Gordon Köhler, vice-líder da bancada da AfD no parlamento estadual, explica que a falta de acúmulo de patrimônio e a instabilidade econômica pós-reunificação deixaram marcas profundas na população do leste. Ele compara a situação atual com a experiência vivida durante o regime socialista, onde a segurança financeira era inexistente e a perda de empregos foi abrupta.
Köhler também aponta para uma percepção de controle e tutela por parte do governo e da imprensa, especialmente durante a pandemia. Essa sensação, segundo ele, remete aos tempos da RDA, quando a informação era direcionada para moldar a opinião pública. A rigidez das medidas sanitárias e a restrição de liberdades básicas teriam acentuado a desconfiança na política.
Conforme informação divulgada pelo próprio político, Gordon Köhler, que atua na área de assuntos familiares do partido, construiu sua carreira no serviço público na Saxônia-Anhalt, lidando com desemprego, baixos salários, asilo e seguridade social. Sua vivência no estado, que concentra grande parte do polo industrial químico da Alemanha Central, também o leva a crer que as preocupações econômicas locais impulsionam o apoio à AfD.
Traumas da Reunificação e a Busca por Segurança Financeira
Köhler ressalta que, diferentemente de seus amigos nos estados ocidentais, muitos alemães do leste não possuem uma rede de segurança financeira robusta. A ausência de heranças significativas, como imóveis ou ações, faz com que qualquer crise econômica afete a população de forma mais direta e rápida. Essa vulnerabilidade, segundo ele, contribui para a busca por alternativas políticas que prometam estabilidade.
Ele descreve a experiência de viver na RDA como um período onde não havia a possibilidade de acumular patrimônio privado, o que resultou na ausência de reservas financeiras para muitas famílias. A transição para o sistema capitalista após a queda do muro trouxe uma transformação drástica, com a perda de empregos e a necessidade de adaptação a um novo modelo econômico.
A Percepção de Controle e a Lembrança da RDA
A forma como a imprensa e o governo lidaram com a pandemia de COVID-19 na Alemanha também é um ponto crucial para Köhler. Ele relata que pessoas que viveram na RDA expressam uma sensação de familiaridade com a situação, comparando-a com a época em que o governo ditava o que pensar e como agir. A imposição de informações de maneira a direcionar a opinião pública é vista como um eco do passado socialista.
A rigidez das medidas adotadas, como a proibição de consumir salsichas em mercados de natal ao ar livre, foi percebida por muitos como uma forma de **tutela excessiva**. Essa incompreensão e a sensação de cerceamento de liberdades teriam gerado uma **perda de confiança na política** e fortalecido o discurso da AfD.
Preocupações Econômicas e o Polo Industrial Químico
A economia da Saxônia-Anhalt enfrenta desafios específicos, especialmente no setor industrial. A região abriga uma parte significativa do chamado **triângulo químico da Alemanha Central**, um polo industrial que luta para manter sua competitividade. A instabilidade nesse setor, que representa cerca de 25% do PIB do estado, tem consequências diretas para a população local.
Segundo Köhler, qualquer crise nesse setor industrial fundamental impacta diretamente a região, o que, por sua vez, **fortalece o apoio ao partido** que se apresenta como defensor dos interesses locais. A AfD, criada em 2013, tem como bandeiras o populismo e a xenofobia, e seus integrantes já foram investigados por discurso de ódio e neonazismo.
Controvérsias e a Classificação como Extremista
A AfD já foi classificada como extremista pelo Escritório Federal de Proteção à Constituição (BfV), o serviço de inteligência interno da Alemanha. No entanto, o partido conseguiu reverter essa classificação judicialmente. Köhler defende que muitas das acusações de extremismo são exageradas e baseadas em declarações protegidas pela liberdade de expressão.
Ele exemplifica com uma manifestação onde comparou a situação da Alemanha Oriental durante a pandemia à economia de escassez e restrições de viagens da RDA. Essa declaração, segundo ele, foi interpretada como uma **deslegitimação do Estado**, levando a acusações de ser extremista de direita. Köhler acusa o BfV de ter lealdade a outros partidos políticos alemães.





