Professora ensina de dentro do carro em fila de gasolina por seis dias na Bolívia
A falta de gasolina na Bolívia, intensificada por protestos e bloqueios de estradas, forçou uma professora a transformar seu carro em uma improvisada sala de aula. Gabriela Garcia, de 43 anos, está há seis dias na fila por combustível em La Paz, aproveitando o tempo para ministrar aulas online para seus alunos do ensino médio.
A situação reflete a crise que o país atravessa há mais de 40 dias, com manifestações que pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz. O desabastecimento de produtos básicos e combustíveis afeta diversas cidades bolivianas, levando as autoridades a adotarem aulas virtuais em regiões atingidas.
A história de Gabriela, que se tornou um símbolo da resiliência diante da adversidade, foi divulgada, mostrando a determinação de uma profissional em não deixar que a crise a impeça de cumprir seu dever. Acompanhe os detalhes dessa e outras repercussões da crise na Bolívia.
Aulas e Rotina em Meio ao Caos
O despertador de Gabriela Garcia toca às 7h, marcando o início de mais um dia letivo. Com o laptop posicionado no banco do carro, ela envia o link para seus alunos, tentando disfarçar o ambiente incomum. “Coloco um filtro no fundo da tela para os alunos não perceberem que estou dentro do carro. Talvez eles estranhem o barulho dos carros e das pessoas que passam aqui na rua”, relata a professora.
Após o fim das aulas, às 13h, inicia-se a parte mais árdua do dia: a espera interminável pela chegada do combustível. “Passo os dias vendo as redes sociais. É o que me entretém um pouco”, confessa Garcia. Para manter seus aparelhos carregados, ela paga 2 bolivianos por hora (cerca de R$ 1) a uma vizinha com um pequeno comércio.
As necessidades básicas também são resolvidas de forma improvisada. A professora utiliza um banheiro público próximo para escovar os dentes e se higienizar com lenços umedecidos, já que não há duchas disponíveis. A troca de roupas acontece à noite, quando a visibilidade é menor, com o uso de protetores de para-brisa para cobrir parcialmente os vidros.
Segurança e Isolamento Familiar
Apesar de ser uma das poucas mulheres na fila, Gabriela se sente segura dentro do veículo, contando com a amizade e proteção de outros motoristas. Ela não depende do carro para seu sustento, mas o considera essencial para sua segurança em meio aos confrontos entre manifestantes e policiais. “O entorno da minha casa e do trabalho está muito violento. […] Com o carro eu consigo desviar dos pontos de bloqueio. Também é importante para que eu possa buscar meus pequenos na escola”, explica.
A distância dos filhos, um menino de 13 anos e uma menina de 6, é o aspecto mais difícil da situação. Eles estão aos cuidados dos avós maternos em El Alto, cidade vizinha a La Paz. “O mais difícil é ficar longe dos meus filhos. Sei que eles estão em boas mãos, mas é complicado estar longe”, desabafa a mãe solo.
Crise Política e Combustível Caro
A falta de gasolina é um dos estopins da revolta popular contra o presidente Rodrigo Paz, que completou sete meses de mandato. No segundo mês de governo, ele extinguiu um subsídio de 20 anos aos combustíveis, o que praticamente dobrou os preços. Além disso, a importação de uma gasolina de baixa qualidade, apelidada de “gasolina basura” (gasolina lixo), causou danos a milhares de veículos bolivianos.
A seguradora UNIBienes informou que quase 67 mil motoristas abriram reclamações devido à “gasolina basura”, com cerca de 28 mil recebendo indenizações que somam aproximadamente 86 milhões de bolivianos (R$ 43 milhões). Três gerentes da estatal petroleira YPFB foram presos sob suspeita de participação em fraudes relacionadas ao combustível.
Em resposta às manifestações, o presidente Rodrigo Paz sancionou uma lei que permite a decretação de estado de exceção, autorizando a atuação das Forças Armadas na contenção de atos. Durante a cerimônia, ele descartou a renúncia, afirmando que seu governo “governarará até 2030”.
A Sorte Chega Após Seis Dias
Na noite de quarta-feira, após seis longos dias de espera, Gabriela Garcia finalmente conseguiu abastecer seu carro. “Consegui colocar gasolina”, escreveu em uma mensagem. No entanto, nem todos compartilharam da mesma sorte. O taxista José Aurélio, há cinco dias parado na fila, relatou dificuldades financeiras e a necessidade de recorrer a empréstimos para pagar as contas, admitindo ter pensado em desistir da profissão diante da crise.





