O Futuro Presidente Herdará uma Conta Salgada: Dívida em Alta, Juros nas Nuvens e Pouco Espaço para Investir
O presidente eleito em outubro de 2026 enfrentará um cenário econômico desafiador. A dívida bruta do governo federal tem previsão de alcançar 88% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027, enquanto a taxa básica de juros (Selic), atualmente em 14%, deve continuar em patamares elevados. Essa combinação exige uma gestão fiscal rigorosa desde o início do mandato.
Analistas e gestores de mercado apontam que o principal obstáculo será a contenção dessa trajetória de endividamento através de um ajuste fiscal efetivo. Sem ele, as consequências podem ser graves, como a manutenção de juros altos, encarecimento do crédito para famílias e empresas, e um estrangulamento ainda maior da atividade econômica.
O diagnóstico do mercado aponta que a expansão dos gastos públicos e o endividamento acelerado marcaram o atual governo. Desde o início do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a dívida bruta do governo já avançou 10,3 pontos percentuais. As projeções indicam que novos recordes podem ser batidos já no próximo ano, conforme divulgado pela Gazeta do Povo.
Dívida Pública em Ascensão e Juros que Sufocam a Economia
As projeções para a dívida bruta do governo federal são preocupantes. O BTG Pactual estima que ela chegue a 86,4% do PIB no fim de 2027, enquanto a XP Investimentos prevê 88%. Se nenhuma medida for tomada, a marca de 100% do PIB pode ser atingida em 2032, segundo Olívia Flôres de Brás, presidente da Magno Investimentos. A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, projeta o mesmo patamar para 2031.
Esse cenário de contas públicas sob pressão é o pano de fundo para a disputa presidencial. Pesquisas indicam uma acirrada competição entre os principais candidatos, e o mercado já sinaliza a necessidade de uma estratégia clara para a sustentabilidade fiscal. “O primeiro teste ocorrerá antes mesmo dos cem dias de governo”, afirma Fá bio Murad, sócio-fundador da Ipê Avaliações, destacando a importância de sinalizar compromisso com a responsabilidade fiscal.
Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, ressalta que o impacto das decisões políticas dependerá das ações concretas em relação ao orçamento, tributação e instituições, e não apenas do discurso. A composição da futura equipe econômica e o compromisso com metas fiscais serão observados de perto. Manobras contábeis ou receitas temporárias que driblem o arcabouço fiscal, em vez de respeitá-lo, não devem tranquilizar os investidores.
Economia Desacelera e Juros Elevados Pressionam Famílias e Empresas
Além dos desafios fiscais, o próximo governo encontrará uma economia com força reduzida. Embora 2026 ainda deva apresentar uma expansão em torno de 1,9% a 2,0%, impulsionada por gastos públicos e crédito subsidiado, esse estímulo é considerado artificial e de curta duração. Para 2027, as projeções de crescimento caem para cerca de 1,0% a 1,1%, segundo XP e BTG, reflexo do esgotamento dos estímulos e da piora no mercado de crédito.
O cenário de juros altos, uma consequência direta da falta de ajuste fiscal, já se reflete no custo do dinheiro. Com as despesas do Estado em expansão, o Banco Central mantém a Selic elevada para controlar a inflação. Isso eleva o custo de financiamento para o governo e encarece o crédito para todos. O Boletim Focus projeta a Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026, mas alguns analistas não veem espaço para novas quedas, como destaca Gustavo Bertotti, chefe de renda variável da Fami Capital, que aponta a elevação da projeção de 12% para 14% em poucos meses.
A dívida pública, por sua vez, torna-se mais cara. A taxa de títulos como o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2029 saltou de 6,26% ao ano em janeiro de 2023 para 8% atualmente. O Tesouro IPCA+ 2035 também viu sua remuneração subir de 6,14% para 7,98% no mesmo período.
O aperto monetário também afeta diretamente as famílias. O consumo, motor do PIB, perde fôlego, e o custo do crédito pesa no bolso. As taxas de empréstimos para pessoas físicas atingiram médias de 64% ao ano em junho, o maior nível desde março de 2017. No rotativo do cartão de crédito, a taxa chegou a 442,4% no mesmo período. O endividamento das famílias bateu recorde em julho de 2026, com 82% delas com dívidas a vencer.
Para as empresas, os juros altos contribuíram para um aumento de 21,7% no número de companhias em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. O custo do capital adia planos de expansão e modernização. Embora a taxa de desemprego esteja em patamares baixos (5,4% no trimestre encerrado em junho de 2026), o efeito defasado do crédito caro e a desaceleração da atividade podem reverter essa tendência, com projeções apontando para 6,1% a 6,5% para os próximos anos.
Dólar em Alta: Risco Fiscal Ameaça a Moeda Brasileira
A deterioração fiscal e os juros altos também exercem pressão sobre o câmbio. Apesar da resiliência recente do real, negociado em torno de R$ 5,20 por dólar, impulsionado pelo superávit comercial e investimentos diretos, o risco fiscal pode reverter esse quadro. Investidores podem passar a exigir maior remuneração para aplicar no país, pressionando o dólar para cima. Projeções para o fim de 2027 indicam o câmbio em torno de R$ 5,28, mas BTG Pactual e Itaú sinalizam R$ 5,50.
É neste cenário complexo que o próximo presidente terá que atuar: com uma dívida crescente, juros elevados, crédito caro e pouca margem para estimular a economia. Para o mercado, o ajuste fiscal se apresenta como o teste decisivo para evitar que a fragilidade das contas públicas contamine ainda mais o cenário econômico.
Apesar da urgência, o tema do ajuste fiscal não tem sido detalhado por todos os candidatos em seus planos de governo. O presidente Lula, por exemplo, não especifica medidas concretas de redução de despesas, embora seu programa econômico defenda genericamente o “controle do aumento do gasto primário”, conforme divulgado pela Gazeta do Povo.





