A Revolução Cultural Chinesa: 60 Anos de um Período que Marcou a História do País com Caos e Transformação
Há exatos 60 anos, em maio de 1966, a China iniciava um de seus períodos mais turbulentos e sombrios: a Grande Revolução Cultural Proletária. Lançada por Mao Tsé-Tung, a campanha visava purgar elementos considerados contrarrevolucionários e revitalizar ideologicamente a sociedade.
O movimento, que se estendeu oficialmente até 1976, mobilizou milhões, especialmente jovens, em uma onda de rebelião contra o que Mao chamava de “velhas ideias”, “velhos costumes” e “velhos hábitos”. A violência e o caos resultantes deixaram cicatrizes profundas na sociedade chinesa, cujos efeitos são sentidos até hoje.
Conforme explica o historiador Yafeng Xia, professor da Universidade de Long Island, a mensagem de Mao era clara: “Rebelem-se contra seus professores, contra seus líderes partidários, contra seus superiores”. Essa chamada à insurreição transformou cidadãos comuns em agentes de perseguição, impactando drasticamente a vida de milhões. A história oficial chinesa considera este período catastrófico.
A Ascensão de Mao e o Fracasso do Grande Salto Adiante
Mao Tsé-Tung consolidou seu poder em 1949, estabelecendo a República Popular da China. No entanto, seu ambicioso programa de industrialização rápida, o Grande Salto Adiante, iniciado em 1958, resultou em um colapso econômico e agrícola. A coletivização forçada e metas irrealistas, combinadas com desastres naturais, levaram a uma fome devastadora.
Estima-se que entre 20 e 40 milhões de pessoas morreram durante este período. Diante do fracasso, Mao recuou temporariamente, permitindo que outros líderes como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping liderassem a recuperação econômica. Contudo, Mao temia ser responsabilizado e começou a rotular seus oponentes como “seguidores do capitalismo”, preparando o terreno para a Revolução Cultural.
O Início da Revolução Cultural e a Mobilização da Juventude
Em 16 de maio de 1966, Mao emitiu a diretiva que deu início oficial à Revolução Cultural. Ele acreditava que muitos funcionários do governo haviam se corrompido e não serviam mais ao povo. A mobilização foi massiva, com camponeses, operários e, principalmente, estudantes sendo incentivados a se rebelar.
A campanha foi marcada por um intenso culto à personalidade de Mao, com imagens de jovens segurando o “Pequeno Livro Vermelho” se tornando um símbolo da época. A juventude era vista como a vanguarda da nova revolução, impulsionada pela crença de que Mao era infalível.
A Guarda Vermelha e a Destruição dos “Quatro Velhos”
O braço mais emblemático da Revolução Cultural foi a Guarda Vermelha, composta por milhões de estudantes que impunham os ensinamentos de Mao. Para esses jovens, “Mao era Deus”, como descreve o historiador Xia. A campanha visava eliminar os “Quatro Velhos”: ideias, cultura, costumes e hábitos antigos.
Professores, intelectuais e qualquer um rotulado como inimigo do Estado eram alvos de perseguição, humilhação pública e violência, por vezes fatal. Universidades foram paralisadas, patrimônios culturais destruídos e famílias comuns foram afetadas, com denúncias e prisões ocorrendo frequentemente.
Caos, Campo e o Legado da Revolução Cultural
Em 1968, o movimento saiu do controle, mergulhando a China em um caos comparado a uma guerra civil, com centenas de milhares de mortes. Mao interveio, enviando cerca de 16 milhões de jovens da Guarda Vermelha para o campo, sob o pretexto de “aprender com os camponeses”.
Após a morte de Mao em 1976, o Partido Comunista Chinês tentou dissociar o líder dos excessos da Revolução Cultural, considerando-a “catastrófica”. A “Gangue dos Quatro”, incluindo a esposa de Mao, Jiang Qing, foi julgada e condenada. Deng Xiaoping, ao assumir o poder, buscou um equilíbrio, afirmando que Mao “estava certo 70% das vezes e errado 30% das vezes”.
Apesar do reconhecimento oficial de alguns erros, a figura de Mao Tsé-Tung ainda divide opiniões na China. Enquanto muitos o idealizam, “pessoas mais instruídas sabem o que aconteceu durante a Revolução Cultural”, ressalta o historiador Yafeng Xia.





