Judeus no Irã: Entre a Guerra e o Medo, Locais Sagrados Sofrem e a Comunidade Vive Sob Tensão
O céu sobre Teerã foi rasgado por bombardeios em 7 de abril, poucas horas antes de um cessar-fogo tentar pacificar 40 dias de guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. Um dos alvos, segundo informações, foi o bairro de Fariman, próximo à antiga embaixada israelense.
Nesse ataque, a histórica sinagoga Rafi-Nia, um dos cerca de 30 templos judaicos da capital iraniana, foi destruída. Israel classificou o incidente como dano colateral, uma justificativa que se repete em situações semelhantes, conforme relatos de reportagem realizada no local uma semana após o ataque.
A destruição da sinagoga e o fechamento de santuários como o túmulo de Ester em Hamadã expõem a delicada situação dos judeus no Irã, uma comunidade com mais de 2.500 anos de história, mas que vive sob constante vigilância e receio, especialmente em períodos de alta tensão geopolítica. Conforme informação divulgada pela reportagem que investigou o caso, a comunidade judaica iraniana se encontra em um paradoxo, buscando manter suas tradições enquanto lida com a desconfiança e a ameaça a seus locais de culto.
A Sinagoga Rafi-Nia: Símbolo de Destruição e Questionamentos Legais
A sinagoga Rafi-Nia, erguida em 1958, era um importante centro para uma comunidade com ritos e tradições litúrgicas próprias. Ao caminhar entre as ruínas em 14 de abril, era possível ver a magnitude da destruição, com paredes de menos de um metro de altura, madeiras e ferros retorcidos, e páginas soltas de livros de oração espalhadas entre os escombros. O local, que deveria ser protegido pelo direito internacional humanitário como bem civil, tornou-se um exemplo emblemático do padrão de destruição de locais religiosos durante o conflito.
A destruição levanta questões legais importantes. O Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra proíbe ataques que causem dano incidental excessivo a objetivos militares legítimos e exige precauções para evitar ou reduzir danos a locais de culto. A reportagem aponta que as circunstâncias do ataque à Rafi-Nia podem sustentar uma qualificação jurídica como crime de guerra, dada a proteção especial conferida a locais de culto.
Yoram Masih, membro da junta responsável pela sinagoga, detalhou os danos: cerca de 400 livros de oração e exemplares da Torá foram danificados, assim como três rolos da Torá com quase cem anos, cujas capas foram destruídas, embora o texto sagrado tenha permanecido intacto. Homayoun Sameyah Najafabadi, único representante judeu no Parlamento iraniano, condenou o ataque, classificando-o como uma falta de piedade do “regime sionista” contra a comunidade.
Medo e Desconfiança: A Comunidade Judaica no Irã
Membros da comunidade judaica, que pediram para não ter seus nomes publicados, expressaram a outras organizações de direitos humanos que a agressão não foi apenas a destruição de um local sagrado, mas uma demonstração da desconfiança com que são vistos os judeus que não se alinham ao sionismo. Eles enfatizam a distinção entre judaísmo, uma fé, e sionismo, um projeto político. Esse receio tem um contexto real, com relatos de interrogatórios e detenções de membros da comunidade em períodos de maior tensão com Israel, sob a alegação de supostos vínculos com Tel Aviv.
Os judeus no Irã ocupam um lugar reconhecido, mas também vigiado. O judaísmo é uma das religiões reconhecidas pela Constituição, com representação própria no Parlamento e instituições comunitárias. Contudo, o reconhecimento convive com restrições, especialmente em tempos de guerra, como a limitação de acesso a certos cargos públicos. A comunidade reivindica seu pertencimento ao Irã, mas aprende a medir suas palavras e onde pode expressá-las.
Um Santuário Fechado em Hamadã: O Túmulo de Ester Sob Cadeado
A presença judaica no território iraniano remonta a mais de 2.500 anos, anterior ao sionismo. Histórias como a de Ester, a rainha judia que teria salvado seu povo, são centrais para essa narrativa. Em Hamadã, fica o local que os judeus persas acreditam ser o túmulo de Ester, um dos santuários judaicos mais venerados do país.
Durante uma visita à cidade, em meio a um clima de tensão após ataques a bases aéreas, o túmulo de Ester estava fechado. O santuário, um edifício de pedra e tijolos que data do início do século XVII, exibe um cadeado novo em seu portão, contrastando com a antiguidade da estrutura. A placa bilíngue indica horários de visitação que não estavam sendo cumpridos, gerando um sentimento de medo institucional em tempos de guerra.
A interdição do local sagrado, em uma praça que seguia seu ritmo habitual a poucos metros dali, simboliza a sensação de aprisionamento que a comunidade judaica iraniana pode sentir. Em um ditado judaico, cada geração carrega seu próprio Egito para atravessar, e desta vez, o limiar para a fé era um cadeado novo, em um país que também é seu lar, mas que se encontra em conflito.





