Suíça decide em plebiscito se impõe teto populacional de 10 milhões de habitantes
Neste domingo, a Suíça realiza um plebiscito que pode definir um marco inédito na Europa: a imposição de um limite de 10 milhões de habitantes no país. A proposta, impulsionada pelo Partido Popular Suíço (SVP), argumenta que a infraestrutura suíça já atingiu seu limite, com transportes sobrecarregados e congestionamentos crescentes.
Caso aprovado, o governo seria instado a tomar medidas para controlar o crescimento populacional, o que pode incluir restrições à imigração ou até mesmo incentivos para que estrangeiros deixem o país. Essa decisão tem potencial para gerar ondas de choque em toda a Europa, um continente que há décadas lida com os desafios da migração e integração.
A Suíça, com uma área territorial menor que a de Sergipe, tem apresentado um dos maiores crescimentos populacionais da Europa nas últimas duas décadas, impulsionado em grande parte pela imigração de trabalhadores qualificados. Segundo o Eurostat, 31% dos 9,1 milhões de habitantes atuais não nasceram no país, muitos deles provenientes da União Europeia desde a adesão ao Espaço Schengen em 2002, que garante a livre circulação de pessoas.
O Dilema da Livre Circulação e o Impacto Econômico
Uma vitória do “sim” no plebiscito suíço poderia ter sérias implicações para o acordo de livre circulação com a União Europeia. Esse acordo tem sido um pilar para a atração de empresas internacionais e profissionais qualificados, que não apenas preenchem vagas de trabalho, mas também criam novas oportunidades de emprego. Um estudo local aponta que 39% dos fundadores de empresas suíças são estrangeiros.
No entanto, o rápido crescimento populacional também trouxe desafios, como o aumento expressivo do custo de vida, especialmente nas áreas urbanas. O preço do metro quadrado em Zurique, por exemplo, já é quase o dobro do de Paris, e o país figura entre os mais caros do mundo em termos imobiliários, segundo o Global Property Guide.
Previsões Econômicas e o Fantasma do Brexit
Estudos econômicos, como o da BAK Economics, preveem que reverter o fluxo migratório pode significar uma perda de 7,1% no crescimento do PIB suíço entre 2028 e 2045. As pesquisas de opinião têm mostrado um cenário dividido, com o debate sendo comparado ao Brexit, devido ao potencial de desastre financeiro e político que uma medida restritiva poderia acarretar.
A campanha pela rejeição da proposta ganhou força, com pesquisas recentes indicando uma ligeira vantagem para o “não”. A questão migratória tem sido frequentemente associada a problemas sociais na Europa, como a recente espiral de violência em Belfast, alimentada por discursos xenófobos e desinformação, inclusive por figuras públicas internacionais.
Debate Político e o Sentimento Xenófobo na Europa
Enquanto isso, a União Europeia discute novas legislações para endurecer políticas migratórias, acelerando deportações e o envio de solicitantes de asilo para países fora do bloco. Na Suíça, apesar de o debate parecer mais civilizado, observa-se a presença de sentimentos de preconceito e xenofobia, que parecem ter seduzido não apenas a direita, mas também setores do centro político, como sociais-democratas e verdes, cada um com suas próprias preocupações.
Christian Koch, um profissional de investimentos com cidadania suíça, alemão e outro passaporte, destaca a interdependência econômica entre a Suíça e a UE. “Se quisermos manter nossos acordos bilaterais em vigor, a UE insiste que a livre circulação de mercadorias esteja associada também à livre circulação de pessoas. Dificultar isso será péssimo para nossas exportações”, afirma.
Dependência de Mão de Obra Estrangeira e o Futuro da Democracia Direta
Koch também ressalta a dependência suíça de mão de obra estrangeira em setores como construção civil e serviços, além de áreas críticas como a saúde, onde 52% dos médicos são alemães. Ele lembra que plebiscitos sobre imigração já ocorreram antes, mas a diferença agora é o impacto da inflação na classe média.
Se aprovado, o teto populacional ainda precisaria passar por aprovação dos 26 cantões suíços e enfrentaria possíveis contestações judiciais, abrindo a possibilidade de novos plebiscitos, uma opção que o Reino Unido não teve com o Brexit. A democracia direta suíça, embora criticada, permite que a população se manifeste sobre temas divisivos, evitando a concentração excessiva de poder em partidos políticos.





