Taiwaneses buscam preparo para conflito com a China, contrastando com a apatia popular
Em meio a um cenário de crescente tensão geopolítica com a China, a sociedade taiwanesa vivencia um paradoxo: enquanto organizações civis como a Kuma Academy oferecem treinamentos intensivos para um eventual conflito, grande parte da população demonstra uma aparente indiferença. Cursos ensinam desde técnicas de primeiros socorros e transporte de feridos até estratégias de defesa e combate à desinformação, refletindo uma preocupação crescente com a possibilidade de uma invasão chinesa. Augustine Shen, gerente de projetos da Kuma Academy, ressalta a importância do preparo, mesmo que o desejo seja a paz.
“Não queremos guerra. Não queremos lutar contra a China. Queremos paz”, afirma Shen, mas complementa: “Mas acreditamos que é preciso estar preparado para impedir a guerra. Se você for fraco, outras pessoas podem facilmente intimidá-lo”. A Academia já treinou cerca de 100 mil pessoas desde sua fundação em 2021, com a meta ambiciosa de alcançar 3 milhões de taiwaneses, um terço dos domicílios na ilha. A iniciativa surge em um contexto onde Pequim considera Taiwan parte de seu território e não descarta o uso da força para unificação.
Apesar da seriedade das preparações promovidas pela Kuma Academy, a percepção geral em Taiwan difere. Pesquisas indicam que, embora a China seja vista como uma ameaça, a maioria dos taiwaneses considera improvável uma invasão nos próximos cinco anos. Nas ruas, a vida segue normal, com pouca visibilidade de aparato militar e um sentimento geral de que a preocupação com a guerra é de gerações mais velhas. Essa dualidade entre o preparo civil e a percepção popular é um dos pontos centrais na discussão sobre a segurança da ilha. As informações são do portal Folha.
Kuma Academy: Preparando civis para um futuro incerto
A sede da Kuma Academy em Taipé é um reflexo da seriedade com que a organização encara a possibilidade de um conflito. Símbolos como um urso-negro, mascote de Taiwan, são retratados em posições de combate, usando capacetes e coletes à prova de balas. Livros sobre estratégia militar, como “Se a China Atacar”, e uma bandeira da Ucrânia com um tridente, símbolo de resistência, adornam o local. A preocupação com a defesa aérea é visível, com placas indicando abrigos próximos.
O perfil dos alunos é predominantemente feminino. Augustine Shen explica que o serviço militar obrigatório para homens em Taiwan os leva a acreditar que já possuem os conhecimentos básicos de defesa. As mulheres, especialmente as solteiras, buscam as aulas para adquirir habilidades em defesa civil. Os cursos abordam desde geopolítica e defesa de Taiwan até técnicas de resgate e atendimento a feridos. A chamada “guerra cognitiva”, que envolve o uso de desinformação para enfraquecer a resistência popular, também é um módulo importante, ensinando os participantes a identificar notícias falsas em redes sociais.
Desafios e Críticas: A Kuma Academy sob o olhar público
Apesar de seu trabalho de conscientização e preparo, a Kuma Academy enfrenta críticas e questionamentos por parte da própria população taiwanesa. Alguns argumentam que tais iniciativas podem aumentar as tensões com a China ou gerar pânico desnecessário. A organização também é acusada de ter um viés partidário, uma vez que um de seus fundadores, Puma Shen, concorre a prefeito de Taipé pelo Partido Democrático Progressista. Essa percepção levou à adaptação do logotipo da entidade, substituindo versões combativas do urso por outras mais “light”, como uma com uma mochila.
Apesar de manter diálogo com o governo, a Kuma Academy se declara independente e sem financiamento público, dependendo de doações e das taxas cobradas pelos cursos. Shen lamenta a desconfiança de parte da população, afirmando que o objetivo é apenas alertar sobre a necessidade de preparo, e não incitar a guerra. “Há quem diga que somos nós que queremos a guerra. Não é verdade. Nós apenas queremos que as pessoas saibam o que fazer caso algo aconteça”, declara.
A perspectiva de 2028 e o chamado à preparação
Augustine Shen considera o ano de 2028 um período de risco elevado para um confronto militar entre China e Taiwan. Essa avaliação se baseia na coincidência das eleições presidenciais em Taiwan e nos Estados Unidos, um cenário que, segundo ele, poderia gerar incertezas políticas exploráveis por Pequim. A transição de liderança nos EUA, especialmente com a possível saída de Donald Trump, pode criar uma janela de oportunidade para a China.
Diante desse cenário, Shen reforça a mensagem de resistência aos seus alunos. “Não se rendam”, é o lema. E, parafraseando uma antiga máxima, ele conclui: “Se você quer paz, prepare-se para a guerra”. O chamado à preparação civil ressoa como um eco em meio à complexa teia de relações internacionais que envolve Taiwan, a China e as potências globais.





