Manizales, Colômbia
O forte terremoto que atingiu a Colômbia nesta segunda-feira (10) trouxe de volta memórias dolorosas para os moradores do Eixo Cafeeiro, especialmente em Manizales. A cidade, uma das mais afetadas pelo sismo de magnitude 7,4, revivenciou o trauma do grande terremoto de 25 de janeiro de 1999, um evento que marcou profundamente a região, deixando mais de 1.100 mortos.
O tremor desta segunda-feira, com epicentro próximo a San José del Palmar, no departamento de Chocó, a cerca de 100 quilômetros de profundidade, foi sentido em grande parte do país e até em nações vizinhas como Equador, Panamá e Venezuela. Para muitos, a sensação foi de um pesadelo recorrente, reacendendo o medo e a incerteza.
Conforme informações divulgadas pelo Serviço Geológico Colombiano, o sismo de 1999 causou perdas irreparáveis e deixou cicatrizes profundas. Agora, com um novo evento sísmico de grande intensidade, os habitantes do Eixo Cafeeiro sentem novamente o chão tremer, confrontando a fragilidade das estruturas e a necessidade urgente de garantir a segurança de seus entes queridos.
O retorno do medo e a força das lembranças
Para muitos que viveram o terremoto de 1999, a experiência de sentir o prédio balançar novamente foi brutal. Uma moradora de Manizales, que tinha seis anos na época do primeiro desastre, relata como o pânico de infância retornou com força total. “Durante anos, 1999 foi mais uma história de família do que uma lembrança minha”, conta ela, descrevendo a diferença de sentir o tremor aos 33 anos.
Ela explica que a compreensão física do barulho de uma estrutura se movendo, a incerteza sobre quanto tempo o tremor duraria e a necessidade imediata de encontrar as pessoas amadas se tornaram realidades assustadoras. A experiência deste segunda-feira foi visceral, diferente de apenas ouvir relatos de um evento passado.
O relato de como o terremoto a pegou de surpresa no 17º andar, após retornar ao apartamento para buscar um relógio esquecido, demonstra a imprevisibilidade do evento. Ao sair do elevador, sentiu o empurrão violento e, dentro de casa, livros caíam, vidros quebravam e gritos ecoavam. Apoiar-se entre duas cadeiras e esperar o fim do tremor, às 7h34, foi um momento de pura tensão.
Manizales sob o impacto do novo sismo
Após o fim do tremor, a descida de 17 andares pelas escadas pareceu uma eternidade. Do lado de fora, famílias inteiras, ainda de pijama, buscavam segurança. A falta de energia elétrica e a interrupção dos serviços de dados móveis e celular nos primeiros minutos aumentaram a angústia, pois ninguém sabia a real extensão dos danos.
Horas depois, o Serviço Geológico Colombiano confirmou a magnitude 7,4 e a profundidade de 100 km. Em Caldas, o jornal La Patria noticiou cinco mortes, quatro em Manizales e uma em Villamaría, números que continuavam a subir à medida que as equipes de resgate trabalhavam.
A principal artéria comercial da cidade, a Avenida Santander, parecia paralisada. Estabelecimentos fechados, vidros nas calçadas e fragmentos de fachadas nas ruas eram cenas comuns. Em frente à Universidade Católica de Manizales, uma edificação havia desabado, e em El Cable, trabalhadores tentavam salvar pertences de estabelecimentos comerciais.
Danos visíveis e a resiliência da população
Paula Mejía, dentista, encontrou seu consultório completamente destruído. “Meu consultório, foi tudo embora, não sobrou nada”, disse ela, abalada e em choque. Próximo dali, parte de um muro do Parque Médico caiu sobre a rua, soterrando um carro estacionado. Jorge García, segurança de um prédio vizinho, relatou ter ouvido um estrondo forte, sentindo um pouco de medo apesar de sua calma habitual.
A Catedral Basílica Metropolitana também sofreu danos em suas torres, um símbolo importante para Manizales. A profundidade do terremoto explica seu alcance, mas as razões pelas quais algumas estruturas foram mais afetadas que outras, mesmo próximas, ainda serão estudadas.
Os tremores secundários continuaram durante a tarde, com o Serviço Geológico registrando 33 até as 16h29. Nas ruas, cenas menores, como uma farmácia 24 horas fechada, mostravam o início da parte menos visível de um terremoto: as alterações nas rotinas que mantêm uma cidade viva.
No fim, o relógio esquecido impediu a corrida na esteira. Caminhando entre prédios isolados e pessoas em busca de familiares, a preocupação com o que poderia ter acontecido deu lugar à realidade do presente. Em Manizales, o tempo passou a ser medido em segundos de pânico, medo e dor, ecoando a memória do trauma de 1999.





