Venezuela: A Tragédia do Terremoto e a Guerra de Narrativas sobre Vítimas
A magnitude de uma tragédia como o terremoto na Venezuela geralmente atrai atenção global nos primeiros dias. No entanto, o impacto para os sobreviventes se estende muito além das manchetes iniciais, marcando o início de uma árdua jornada de busca por desaparecidos, reconstrução e, crucialmente, a disputa por narrativas e dados oficiais.
Esta edição da Cercanías, newsletter da Folha sobre a América Latina, retorna ao evento para analisar as complexidades que emergem após o desastre. O foco principal recai sobre as incertezas em torno do número de afetados e vítimas, um ponto central na atual crise venezuelana.
As informações sobre o terremoto na Venezuela, divulgadas pelo regime, têm sido questionadas por especialistas e pela imprensa internacional. Essa divergência de números não é meramente estatística, mas sim uma tentativa de compreender a real dimensão de um desastre em um país já fragilizado. Conforme aponta a matéria, a disputa pelos números rapidamente ganhou contornos políticos, com estimativas independentes sendo usadas para questionar se a extensão da tragédia está sendo minimizada pelas autoridades, conforme reportado pelo New York Times.
Governo Venezolano e Números Oficiais Questionados
O governo venezuelano afirma que o número de mortos ultrapassa 5.000. Contudo, especialistas em gestão de desastres alertam que o número real de vítimas pode nunca ser conhecido. A estimativa de desaparecidos também é considerada subdimensionada, dado o colapso de edifícios e bairros inteiros. Enquanto isso, grupos da sociedade civil continuam a trabalhar incansavelmente nos escombros em busca de corpos e desaparecidos.
A líder interina, Delcy Rodríguez, defende a atuação das autoridades, afirmando que milhares de funcionários públicos e equipes de resgate foram mobilizados desde as primeiras horas após os terremotos, conforme noticiado pelo The Guardian. O governo rejeita a leitura de que a dimensão da tragédia estaria sendo minimizada.
Desastres Revelam a Real Capacidade de um Regime
O cientista político Javier Corrales, em artigo para o Journal of Democracy, propõe uma reflexão pertinente: grandes desastres não criam governos eficientes ou ineficientes, mas sim tornam visível o que eles já são. As primeiras semanas após os terremotos na Venezuela foram marcadas por dificuldades na coordenação de resgates, barreiras para o acesso de voluntários a áreas atingidas e um aparato estatal cuja capacidade de resposta foi intensamente escrutinada.
A Fragilidade Exposta Pelo Terremoto na Venezuela
Luz Mely Reyes, jornalista venezuelana e fundadora do site independente Efecto Cocuyo, em análise publicada no El País, descreve o terremoto como um evento que não apenas destruiu infraestrutura, mas também expôs dramaticamente a fragilidade do regime venezuelano. Nas primeiras 48 horas, famílias recorreram às redes sociais em busca de socorro, enquanto voluntários tentavam organizar resgates diante de um aparelho público incapaz de atender à escala da tragédia.
Para Reyes, a remoção dos escombros é apenas parte do desafio. A reconstrução da Venezuela exigirá também a reconstrução de suas instituições. Ela apresenta propostas de intelectuais e especialistas venezuelanos para a criação de uma Junta de Emergência, visando um futuro mais resiliente para o país.





