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Trump é ‘paciente zero’ da “pandemia de negacionismo eleitoral” global, alerta especialista do IDEA

Secretário-geral do Instituto Internacional para a Democracia e Auxílio Eleitoral (IDEA) detalha como o ex-presidente americano se tornou o epicentro de uma crise democrática mundial.

O negacionismo eleitoral, que tem abalado democracias ao redor do globo, encontra seu principal vetor no ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Essa é a tese central de Kevin Casas-Zamora, secretário-geral do IDEA, que compara o fenômeno a uma “pandemia” com Trump como o “paciente zero”.

Um relatório recente do IDEA estabelece uma conexão direta entre a erosão democrática nos EUA, impulsionada por Trump, e o crescimento de movimentos autoritários em outras nações, incluindo o Brasil. A invasão do Capitólio em 2021 e o ataque às instituições democráticas brasileiras em 8 de janeiro de 2023 são apresentados como eventos interligados.

Casas-Zamora discute em entrevista exclusiva como a postura de Trump em questionar resultados eleitorais sem provas tem servido de inspiração para atores políticos em diversos países, e aborda a complexa relação entre interferência estrangeira e a saúde democrática, especialmente na América Latina. A análise abrange ainda a situação democrática nos EUA e no Brasil, com dados que indicam uma melhora nos indicadores brasileiros, mas também levantam preocupações sobre o papel do Judiciário.

A “pandemia” do negacionismo eleitoral e o papel de Trump

Segundo Kevin Casas-Zamora, a “pandemia de negacionismo eleitoral” que assola o mundo democrático há pelo menos cinco anos tem em Donald Trump o seu “paciente zero”. O IDEA observa que o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, incentivado por Trump, serviu de modelo para eventos posteriores, como a invasão das sedes dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. “Tudo que acontece nos EUA tem impactos globais”, afirma Casas-Zamora, destacando que os paralelos entre os eventos em Washington e no Brasil são evidentes.

A disseminação de dúvidas sobre processos eleitorais confiáveis, sem a apresentação de provas, tornou-se uma tática recorrente de políticos em todo o mundo. Essa estratégia, que enfraquece a confiança nas instituições democráticas, encontra no comportamento de Trump um de seus maiores catalisadores. O relatório do IDEA aponta que a forma de intervenção externa em eleições mudou, tornando-se mais explícita em alguns casos na América Latina.

Interferência estrangeira e a integridade eleitoral

Casas-Zamora reconhece que a intervenção estrangeira é um “fator deletério” para a justiça eleitoral, assim como o acesso desigual a recursos financeiros por diferentes partidos. Ele ressalta a dificuldade em determinar com exatidão quando a influência externa ou o uso de dinheiro distorcem um pleito a ponto de ele deixar de ser justo e transparente.

“A ciência não sabe dizer por que as pessoas votam como votam”, pondera o secretário-geral do IDEA. “Enquanto não houver evidência contundente de que o comportamento eleitoral foi alterado por algum desses fatores, creio que é necessário, no caso de um país como o Brasil, presumir que o processo é suficientemente aberto e transparente para que a eleição seja justa, independentemente do resultado.” Ele cita exemplos de interferência em outros países da América Latina, como Colômbia, Honduras e Argentina, onde promessas de apoio econômico foram condicionadas a resultados eleitorais específicos.

Democracia brasileira: avanços e desafios

O relatório do IDEA aponta uma melhora significativa no nível democrático do Brasil, com o país avançando 12 posições na categoria “direitos” entre 2025 e 2026. Essa ascensão é atribuída, em grande parte, à “queda abrupta em muitos indicadores durante o governo anterior”, que foi marcado por “fortes ataques contra a liberdade de imprensa, a independência judicial e a credibilidade do processo eleitoral”.

Apesar desse avanço, Casas-Zamora reconhece que o Judiciário brasileiro enfrenta críticas, inclusive sobre possíveis abusos. “Há problemas no Judiciário do Brasil que merecem atenção”, admite. Contudo, ele destaca o papel “fundamental” do Supremo Tribunal Federal (STF) na proteção da democracia e na garantia da integridade eleitoral durante os ataques de Jair Bolsonaro às eleições. A lição, segundo ele, é que “acusações sem provas, que causam danos gratuitos à democracia em um país, devem ter um custo político para quem as levanta”.

O perigo da extrema-direita no poder

Sobre a ascensão da extrema-direita, Casas-Zamora diferencia o sucesso eleitoral, que considera legítimo e fruto da vontade popular, da conduta desses partidos quando chegam ao poder. “É muito diferente quando os partidos de extrema direita chegam ao poder. Aí sim temos provas abundantes de que, assim que isso acontece, há um ataque sistemático aos controles sobre o exercício do poder”, alerta.

Ele acrescenta que o perigo reside na ação desses grupos no governo, e não em sua capacidade de conquistar votos democraticamente. “O desempenho eleitoral dos partidos de extrema direita, fruto do jogo democrático, é muito diferente da conduta desses partidos quando chegam ao poder. O perigo está no segundo, não no primeiro.” Ao ser questionado sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro, ele declara: “Se se portar como seu pai, há razões para temer um retrocesso democrático.”

A fragilidade das instituições americanas diante de Trump

Casas-Zamora explica o aparente enfraquecimento das instituições americanas diante de Trump citando Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em “Como as Democracias Morrem”. A dinâmica democrática, segundo os autores, depende mais do comportamento e autocontenção dos atores políticos do que de normas formais. Trump, ao “não respeitar as regras do jogo”, fez com que elas enfraquecessem.

No entanto, ele ressalta que nem todas as instituições falharam. A independência judicial, especialmente em instâncias inferiores, mostrou-se crucial para frear as intenções de Trump de atropelar as instituições. “O caso americano oferece um exemplo extraordinário de por que a independência judicial é tão importante na democracia”, conclui.

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