Especialistas analisam a queda livre na relação Brasil-EUA, com Trump intensificando medidas contra o governo Lula.
Após um início de ano com sinais de reaproximação, a relação entre o governo Donald Trump e o Brasil entrou em uma fase de acentuada deterioração. Medidas como a imposição de novas tarifas e declarações públicas hostis indicam uma estratégia de antagonismo, segundo analistas.
Essas ações coincidem com um movimento de fortalecimento de aliados de direita em países vizinhos, o que pode ter sido um fator determinante para a postura mais agressiva de Washington em relação a Brasília. A percepção é que o governo Trump busca capitalizar esse cenário regional.
A análise dos especialistas sugere que o objetivo seria dificultar a vida do governo Lula e influenciar o cenário eleitoral brasileiro. Conforme informação divulgada pela Folha de S.Paulo, o professor Felipe Loureiro, do Instituto de Relações Internacionais da USP, avalia que a sequência de vitórias de aliados de direita na América Latina pode ter incentivado Trump a pressionar mais o governo brasileiro.
Fortalecimento da Extrema-Direita na Região como Fator Chave
Felipe Loureiro destaca que a ascensão da extrema-direita em países como Chile, Argentina, Peru e Colômbia pode ter sinalizado para o governo americano uma oportunidade de ouro. “Essa mudança coincide com um fortalecimento da extrema direita na região”, afirma Loureiro. Ele explica que a percepção é que “tudo que puder ser feito para dificultar a vida do governo Lula será feito”.
O diplomata Rubens Ricupero compartilha dessa visão, ressaltando que, embora Trump tenha adotado medidas semelhantes contra outros países, no caso do Brasil a motivação política é explícita. “É uma afirmação que não corresponde à realidade. A aplicação das tarifas não ocorre por causa do ego do Lula, mas porque o governo Trump não tolera um governo de orientação diferente na América Latina”, pontua Ricupero.
Motivações Políticas e a Busca por uma “Aliança Conservadora”
Amâncio Jorge de Oliveira, professor titular de Relações Internacionais da USP, complementa que o desejo de Trump em formar uma “aliança conservadora” nas Américas intensifica o distanciamento entre os países. Ele também especula que o tarifaço pode ter sido uma resposta à falta de concessões esperadas após a suspensão de sanções contra o STF.
“Pensando no estilo de Trump, a lei Magnitsky não seria retirada sem uma contrapartida”, afirma Oliveira. Ele observa que a diplomacia americana atual se baseia em posturas unilaterais, com uma potencial desconexão entre o efeito político desejado e as medidas utilizadas.
Interferência Explícita e Consequências para o Brasil
Os especialistas concordam que a atual tensão representa um dos piores momentos na relação bilateral, com a diferença de que a interferência agora é explícita. “Se na época a participação americana no golpe, com movimentação de esquadra naval e financiamento, foi ocultada, hoje Trump apoia abertamente candidatos contrários a Lula”, compara Rubens Ricupero.
Apesar da dificuldade em reverter o tarifaço enquanto Trump estiver no poder, Ricupero avalia que a relação tenderá a uma normalização após o fim de seu mandato, pois seu movimento é personalista e não deixará um legado político duradouro. Contudo, Amâncio Jorge de Oliveira alerta que, mesmo com essa perspectiva, o saldo para o Brasil é negativo, com a possível perda da percepção de liderança regional e anos difíceis pela frente caso Lula seja reeleito.





