Xi Jinping viaja para fortalecer coalizão e negociar com Trump, mas desafios econômicos internos e externos pairam sobre a China.
A recente agenda internacional do presidente chinês, Xi Jinping, marcada pela participação na cúpula do BRICS em Nova Deli e uma iminente visita de Estado a Washington, tem sido apresentada pela imprensa oficial como uma estratégia para formar uma coalizão contra as tarifas americanas. No entanto, a narrativa oficial esconde complexidades e desafios que podem minar a posição de barganha de Pequim.
A sequência de compromissos, que incluiu Bishkek e o Cairo, foi divulgada como um movimento para consolidar o Sul Global. Contudo, os acordos financeiros firmados, como o empréstimo para a ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão e a renovação do swap cambial com o Egito, já estavam em andamento antes da viagem, segundo informações divulgadas.
A verdadeira força que Xi Jinping pretende demonstrar a Donald Trump reside nos robustos números de exportação chineses, que registraram um crescimento de 25% em agosto, com um superávit recorde de US$ 119,1 bilhões. Essa performance, impulsionada por setores como semicondutores e automóveis, confere a Pequim uma posição de negociação aparentemente confortável, especialmente diante de um Trump pressionado pela eleição presidencial americana. Conforme informações divulgadas, essa vantagem, porém, vem sendo corroída por um mecanismo autoimposto: a estratégia de exportação massiva, embora barata, tem gerado desequilíbrios e desindustrialização em outros países.
O Dilema do Superávit Comercial Chinês
A estratégia chinesa de inundar o mercado global com produtos a preços competitivos, embora benéfica para o consumo em países em desenvolvimento, tem criado um efeito colateral perigoso. A falta de um desenvolvimento industrial proporcional em contrapartida, que gere empregos locais, tem levado à criação de barreiras comerciais. Este é um ponto crucial que a China precisa gerenciar em suas negociações internacionais.
O caso da Índia é emblemático. No ano fiscal encerrado em março, a China se tornou a maior parceira comercial indiana, com um fluxo comercial recorde de US$ 151,1 bilhões. Contudo, o déficit comercial indiano também atingiu um pico histórico de US$ 112,2 bilhões. Em resposta, o governo indiano tem intensificado investigações antidumping contra produtos chineses, demonstrando o crescente descontentamento.
Europa e a Reação à Supercapacidade Chinesa
A Europa também tem demonstrado preocupação com a política comercial chinesa. Após um pedido de cinco países do bloco por medidas mais restritivas contra produtos chineses em maio, o Ministério do Comércio da China publicou em julho sua primeira posição formal sobre a supercapacidade industrial. O documento, no entanto, nega a relação direta entre subsídios industriais e o excesso de produção, classificando o consumo interno fraco como uma fase transitória.
Os dados de agosto, porém, não sustentam essa tese. As importações chinesas ficaram abaixo das projeções pelo segundo mês consecutivo, e o consumo interno ainda não compensa a demanda externa. Essa fragilidade interna pode ser um ponto de vulnerabilidade na estratégia de negociação de Xi Jinping.
O Futuro das Negociações: Barreiras ou Tréguas?
A equipe de Donald Trump, ciente dos números de alfândega que fortalecem a posição de Xi, também sabe que o superávit chinês depende de mercados que estão se fechando. A diplomacia de setembro, portanto, parece ser uma tentativa de adiar o momento da prestação de contas. O verdadeiro teste para a estratégia chinesa virá em outubro e novembro, quando será possível avaliar o impacto das barreiras comerciais implementadas neste ano sobre as exportações da China.
A expectativa é que a visita de Xi Jinping a Washington sirva para tentar prorrogar essa fase de trégua tarifária, mas a crescente pressão interna e externa pode tornar essa tarefa cada vez mais complexa. A capacidade da China de gerenciar seus próprios desequilíbrios econômicos será fundamental para determinar o sucesso de suas negociações futuras.





