Ex-ministro da Defesa da China condenado à morte em julgamento militar revela consolidação de poder de Xi Jinping
Um tribunal militar chinês proferiu uma sentença severa contra Li Shangfu, ex-ministro da Defesa, condenando-o à morte. Na prática, a pena será convertida em prisão perpétua, sem possibilidade de redução ou liberdade condicional. Li foi considerado culpado de aceitar subornos milionários e de favorecer aliados em nomeações militares, compartilhando o mesmo destino de seu antecessor, Wei Fenghe, que recebeu a mesma condenação.
A trajetória de Li Shangfu ilustra a dinâmica de poder sob a liderança de Xi Jinping na China. Oficial do programa espacial militar, Li ganhou o favor do líder chinês e foi nomeado ministro em março de 2023, apesar de ter sido alvo de sanções dos Estados Unidos por sua atuação em contratos militares com a Rússia. Contudo, poucos meses depois, desapareceu da vida pública e, em outubro, foi demitido, tornando-se o chefe de defesa com o mandato mais curto da história do país.
A cobertura oficial dos eventos não deixa margens para dúvidas sobre a mensagem transmitida. O Diário do Exército de Libertação Popular publicou um editorial acusando os condenados de “colapso de fé e perda de lealdade”, marcando a primeira vez que o termo “deslealdade” foi associado a Li em um veículo oficial. A publicação reforça a ideia de que “o Exército empunha a arma, e não pode haver quem abrigue deslealdade ao Partido”, e que “não importa quão alto o cargo, todos são iguais perante a disciplina partidária”.
Expurgos militares e a demonstração de força de Xi Jinping
As sentenças impostas a Li Shangfu e Wei Fenghe representam as punições mais duras aplicadas a militares desde o início da campanha anticorrupção de Xi Jinping. No entanto, esses casos não são isolados. Dos 44 militares eleitos para o Comitê Central em 2022, pelo menos oito foram destituídos ou investigados. Em outubro de 2025, durante o Quarto Plenário, nove generais foram expulsos do Partido simultaneamente, sem que militares fossem promovidos para preencher suas vagas. Em fevereiro, mais nove perderam seus mandatos na Assembleia Nacional Popular.
A magnitude desses expurgos levou analistas a especular sobre uma possível perda de controle de Xi Jinping sobre as Forças Armadas. Contudo, essa interpretação inverte a lógica do que realmente está ocorrendo. A derrubada de figuras tão poderosas, incluindo aliados como He Weidong, cuja carreira se cruzou com a de Xi nos anos 1990 em Fujian, exige, na verdade, **mais poder, não menos**.
O Partido Comunista no comando, não o Exército
Esses eventos demonstram de forma contundente que é o Partido Comunista que dita as regras na China, e não o Exército. Tal expurgo sinaliza uma **confiança sem precedentes de Xi Jinping em seu próprio poder**, a ponto de ele talvez nem precise se reeleger como secretário-geral em 2027 para continuar governando. Essa teoria foi compartilhada por diversos interlocutores familiarizados com a dinâmica do Partido em Pequim.
A especulação é que Xi possa manter apenas a presidência da Comissão Militar Central, cedendo o posto de secretário-geral ao premiê Li Qiang, que serviria como um fiador do legado de Xi. Esse arranjo não seria inédito na história chinesa, lembrando as estratégias de Mao Tsé-Tung e Deng Xiaoping, que mantiveram o controle de fato mesmo sem os cargos formais de liderança.
Um sistema de poder duradouro e centralizado
A grande diferença é que, enquanto Mao e Deng dependiam de manobras políticas constantes para se manter no poder, Xi Jinping construiu um sistema **muito mais duradouro e centralizado**. Nele, o Partido, o Estado e o Exército operam em uníssono, guiados por uma única vontade. Nesse contexto, o título de secretário-geral torna-se quase um detalhe burocrático, evidenciando a **consolidação absoluta do poder de Xi Jinping**.





