Bertha Lutz: A Influência Duradoura da Pioneira Feminista na Luta por Igualdade Global
Cinco décadas após seu falecimento, Bertha Lutz, uma figura monumental na história do feminismo brasileiro e internacional, continua a inspirar. Sua luta incansável pelo sufrágio feminino no Brasil e, notavelmente, sua participação decisiva na inclusão da igualdade de gênero na Carta das Nações Unidas, em 1945, são marcos que ecoam com força.
A bióloga, diplomata e líder sufragista, falecida em 16 de setembro de 1976, deixou um legado de determinação e visão. Sua atuação em San Francisco, pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial, foi crucial para garantir que a igualdade entre homens e mulheres fosse um princípio fundamental da organização que moldaria as relações internacionais.
O impacto de sua participação na Conferência de San Francisco, como detalha o conteúdo original, foi além do simbolismo. A inclusão explícita da igualdade de direitos entre homens e mulheres na Carta da ONU, graças à persistência de Bertha Lutz, serviu de base para políticas nacionais e internacionais por décadas, conforme aponta a historiadora Branca Moreira Alves.
A luta de Bertha pela igualdade de gênero na ONU, no entanto, não foi isenta de desafios. Ela enfrentou resistência, inclusive de algumas delegadas, mas com o apoio de aliadas como a mexicana Amalia de Castillo Ledón e a dominicana Minerva Bernardino, conseguiu inserir a frase crucial no preâmbulo da Carta: “na igualdade de direito dos homens e das mulheres”.
A Batalha pela Inclusão na Carta da ONU
Ao desembarcar em San Francisco em 1945, Bertha Lutz tinha uma missão clara, mas desafiadora: garantir que a igualdade de gênero fosse um pilar da recém-criada Organização das Nações Unidas. A diplomata brasileira, com sua experiência na luta pelo voto feminino, sabia que a ausência de menção explícita às mulheres poderia abrir brechas para interpretações restritivas.
“Ela sabia muito bem que essa história de que a palavra ‘homem’ inclui as mulheres de forma genérica não é verdade”, explica a historiadora Branca Moreira Alves, que entrevistou Lutz pouco antes de sua morte. Essa percepção vinha da própria experiência na conquista do voto feminino no Brasil, onde argumentos legais frequentemente excluíam as mulheres.
A resistência à inclusão explícita da palavra “mulheres” no documento fundador da ONU foi significativa. Bertha Lutz, contudo, não se deu por vencida, buscando ativamente apoio entre as poucas delegadas presentes e articulando alianças estratégicas para defender sua causa.
Um Legado de Luta e Contradições
A trajetória de Bertha Lutz foi marcada por uma série de feitos notáveis. Além de sua atuação na ONU, ela fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) em 1919, foi fundamental para a conquista do voto feminino em 1932, atuou como deputada federal e dedicou décadas de sua vida à biologia no Museu Nacional.
No entanto, como toda figura histórica complexa, Bertha Lutz também apresentava contradições. Sua postura em relação ao direito ao divórcio, por exemplo, permaneceu silenciosa, mesmo com a conquista do direito ocorrendo em 1977, após sua morte. Críticas também surgiram de colegas feministas, como a jornalista Cibele Tenório em sua biografia de Almerinda Gama, apontando que, apesar de seus esforços, a demanda por direitos das trabalhadoras muitas vezes carecia de uma inclusão efetiva das próprias operárias.
Um episódio marcante que ilustra essa complexidade, narrado por Tenório, foi a recusa de Bertha em receber um grupo de garçonetes acompanhadas por um advogado em 1932. “Bertha achava que a mulher não devia ser apadrinhada por homem nenhum”, relata a jornalista, revelando uma faceta de sua independência radical.
O Funeral Simbólico e a Mensagem Atemporal
A morte de Bertha Lutz, em 1976, foi marcada por um gesto simbólico que refletia sua personalidade e seus ideais. Conforme descrito na reportagem, um grupo de idosas carregou seu caixão até a sepultura, cumprindo um último desejo de que nenhum homem tocasse em seu esquife nos momentos finais. Essa cena, ocorrida no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, ressalta a força de suas convicções.
O obituário publicado na Folha, no dia de seu enterro, encerra com uma citação de Bertha Lutz que permanece incrivelmente atual, 50 anos após sua morte: “Para a mulher vencer na vida tem que se atirar. Se erra uma vez, tem que tentar outras cem. É justamente a nova geração a responsável para levar avante a luta da mulher pela igualdade.”
Essa mensagem de perseverança e a responsabilidade passada às novas gerações continuam a ecoar, lembrando a importância do legado de Bertha Lutz na contínua busca por um mundo mais justo e igualitário para todas as mulheres.





