Um ano depois, o renascimento do multilateralismo: o que mudou na diplomacia global?
A Assembleia Geral da ONU deste ano apresentou um cenário diplomático contrastante com o do ano anterior. Enquanto em 2023 o discurso do então presidente Donald Trump ecoava uma ordem mundial baseada na força e na ação unilateral, em 2024 a tendência é um fortalecimento do multilateralismo.
O chamado Board of Peace, iniciativa que refletia a visão de Trump, encontra-se esvaziado. Em contrapartida, o Grupo de Haia, criado em resposta a conflitos, consolidou-se como uma coalizão em defesa de um multilateralismo pautado em direitos, equidade e justiça.
Essa mudança de cenário, conforme apontado por análises recentes, sugere um renascimento da cooperação internacional. A informação é divulgada em um contexto onde a própria ONU busca reafirmar seu papel como “templo da paz”, segundo declarações do presidente Lula. O que se observa é um amplo apoio internacional à renovação do multilateralismo, apesar dos desafios que ainda persistem, como cortes de financiamento e violações de soberania.
A Ascensão do Grupo de Haia e o Declínio da “Ação”
O discurso de Donald Trump na Assembleia Geral do ano passado defendia a primazia da força como solução para conflitos. Essa filosofia, que se materializou no “Board of Peace”, hoje mostra seus limites. O grupo perdeu relevância, enquanto o Grupo de Haia, focado na defesa de direitos e justiça, ganhou protagonismo.
Mesmo com a persistência de discursos em favor da força, como visto na retórica de Trump sobre o Irã, os bastidores mostram o oposto. Negociações diplomáticas ocorriam simultaneamente, evidenciando a necessidade da cooperação, mesmo para aqueles que exaltam a coerção. O multilateralismo, que muitos decretaram morto, parece estar em processo de renascimento.
Desafios Atuais e a Necessidade de Adaptação do Multilateralismo
Apesar do otimismo, a crise global não passou. Desafios como cortes de financiamento em instituições internacionais, violações de soberania, desprezo pelas regras de guerra, inação diante das mudanças climáticas e concentração de poder econômico continuam presentes.
Esses problemas não são novos. A Guerra Fria e falhas em impedir atrocidades em Ruanda e na Bósnia, assim como as consequências da invasão do Iraque e a agressão russa à Ucrânia, demonstram a complexidade da governança global. A pandemia, por sua vez, escancarou a interdependência e a dificuldade em transformar solidariedade em ação efetiva.
Novas Iniciativas Globais para um Futuro Colaborativo
A Assembleia Geral deste ano marcou o lançamento da **Parceria pelo Multilateralismo**, liderada por sete governos e pela União Europeia. A iniciativa visa reafirmar o compromisso com instituições, normas e acordos internacionais, ressaltando que “a cooperação não é um ato de idealismo, é uma necessidade prática”.
Diante da crise de segurança alimentar global, exacerbada por conflitos e fenômenos climáticos, a questão central não é mais se o multilateralismo sobreviverá, mas como ele se transformará. Dois eixos principais se destacam: a **inteligência artificial** e a **desigualdade**.
A **Iniciativa das Potências Médias para a Inteligência Artificial**, lançada por Quênia e Finlândia, busca evitar a reprodução de relações de dependência no ambiente digital, onde EUA e China dominam. A proposta é compartilhar infraestrutura e talentos para fortalecer capacidades coletivas.
Paralelamente, ganha força a ideia de um **Painel Internacional sobre Desigualdade**, inspirado no IPCC. Impulsionado por Brasil, Noruega, África do Sul e Espanha, o órgão reuniria evidências sobre desigualdades e subsidiaria reformas financeiras, tributárias e de proteção social. A iniciativa busca aprovação em resolução da Assembleia Geral.
O Futuro do Multilateralismo: Ação e Distribuição de Poder
O futuro do multilateralismo não dependerá de uma única liderança, mas da **tradução de palavras em ação**. A transformação da ordem internacional, vista com desconfiança por potências hegemônicas, exige um esforço conjunto.
A Assembleia Geral deste ano não foi marcada por uma nostalgia das instituições passadas, mas pela **reivindicação de soberania, prosperidade compartilhada e maior distribuição de poder em favor do Sul Global**. A mensagem é clara: agir sozinho não é mais uma opção sustentável para enfrentar os desafios do século 21.





