Fim da Caderneta de Racionamento em Cuba: Uma Mudança Radical Após Seis Décadas de Subsídios
Após 60 anos, a icônica caderneta de racionamento, símbolo da igualdade imposta pela Revolução Cubana de 1959, está prestes a desaparecer. Mercados de bairro surgem gradualmente, substituindo as antigas mercearias onde milhões de cubanos compravam produtos essenciais a preços subsidiados. Essa transição representa uma completa reformulação do cotidiano e da economia cubana.
A mudança ocorre em meio a uma profunda reforma econômica, pressionada pelas sanções impostas pelos Estados Unidos e pelo bloqueio do petróleo. Cuba, historicamente sob um modelo estatista, caminha para uma economia de mercado, enfrentando desafios significativos para sua população.
Sem anúncios oficiais, o fim da rede de mercearias, que garantia alimentos básicos a um décimo do valor de mercado, gera apreensão. Conforme informações divulgadas, para muitos cubanos, essa mudança significa a perda do acesso seguro e acessível a produtos essenciais em um país onde a pobreza afeta uma parcela considerável da população.
O Legado de Fidel Castro e a Era dos Subsídios Universais
O sistema de mercearias e da caderneta foi implementado por Fidel Castro em 1963, como resposta à escassez de alimentos após o embargo americano. Na chamada “época das vacas gordas”, a caderneta assegurava a alimentação mensal de qualquer cidadão, independentemente de sua renda. O Estado cubano destinava cerca de US$ 1 bilhão anualmente para manter este sistema, que em tempos difíceis garantiu um “mínimo” de subsistência.
América Guillén, 82 anos, recorda que o sistema era crucial para os mais necessitados. “Nós, os mais pobres, estamos passando por muitas dificuldades”, lamenta a idosa, que vive com a aposentadoria mínima. A caderneta de racionamento foi um pilar de segurança alimentar por décadas.
Crise Econômica e o Gradual Deterioramento do Sistema de Racionamento
O sistema de subsídios começou a se fragilizar na década de 1990, com a queda do bloco soviético, principal sustentáculo econômico de Cuba. Em 2008, o então líder Raúl Castro iniciou uma política de eliminação de “subsídios e gratuidades indevidos”, retirando gradualmente produtos da caderneta.
Sob a presidência de Miguel Díaz-Canel, a cesta subsidiada foi reduzida ao mínimo, intensificada pelas sanções americanas. “A caderneta também está sendo extinta porque não recebemos nada”, comenta Guillén, refletindo a escassez que se tornou comum nas mercearias estatais.
Novos Mercados e o Desafio da Acessibilidade Econômica
Nos últimos meses, as mercearias ofereciam apenas arroz e açúcar, forçando os cubanos a recorrer a supermercados estatais em dólares ou a lojas privadas. A intenção do governo é subsidiar “as pessoas vulneráveis”, em vez de um subsídio universal. Foram criados 24 “mercados de bairro” com preços entre 10% e 15% inferiores aos do setor privado.
No entanto, clientes como Ivón de la Riva, 64 anos, observam que os preços nesses novos estabelecimentos ainda são elevados para a maioria. “Se esta vai ser a nossa mercearia, considerando o poder de compra da maioria das pessoas, os preços deveriam ser mais baixos”, opina. Rafael García, 75 anos, resume o sentimento geral: “Não é que esteja mais barato; é que está menos caro” do que em outros locais, evidenciando a luta pela acessibilidade na nova economia cubana.





