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Guerra contra o crime: Especialistas alertam que rotular cartéis como terroristas nos EUA não resolve a violência na América Latina

Especialistas divergem sobre eficácia da classificação de ‘terrorista’ para cartéis na América Latina, com Brasil sob pressão dos EUA.

A política de classificar organizações de narcotráfico na América Latina como terroristas, fortemente promovida pelos Estados Unidos, tem gerado intensos debates e resistência em países como o Brasil. A discussão ganhou contornos eleitorais, com a oposição defendendo a medida e o governo Lula buscando evitar sanções e possíveis intervenções estrangeiras.

Enquanto os EUA aumentam a lista de grupos designados, incluindo cartéis mexicanos e facções brasileiras, pesquisadores apontam que a estratégia pode não ser a mais eficaz para combater o crime organizado. A falta de resultados concretos e os riscos de conflitos internacionais levantam questionamentos sobre a real finalidade dessa abordagem.

A Folha de S.Paulo apurou que o governo brasileiro teme que a designação de grupos como CV e PCC como terroristas abra brechas legais para ações unilaterais americanas em território nacional. Essa preocupação se soma a um cenário onde outros países da região já adotaram classificações semelhantes, com resultados ainda em avaliação.

O que significa a designação de ‘terrorista’ para grupos criminosos?

A estratégia americana visa isolar e combater grupos que representam uma ameaça à segurança nacional dos EUA e da região. Atualmente, cerca de 18 grupos na América Latina compõem essa lista, que abrange desde cartéis de drogas mexicanos, como o de Sinaloa, até facções brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho, além de grupos como Los Lobos e Los Choneros no Equador.

Essas organizações são conhecidas não apenas pelo tráfico de drogas, mas também por crimes como lavagem de dinheiro, extorsão, roubos e homicídios. Os EUA têm intensificado ações, como operações militares no Caribe contra embarcações suspeitas de ligação com esses grupos.

Países como El Salvador, Guatemala, Equador, Argentina e Peru já classificaram determinados grupos como terroristas. Em outubro de 2025, o Paraguai também designou o CV e o PCC como organizações terroristas internacionais, gerando preocupação local sobre o sentimento de terror provocado por essas facções.

Pesquisadores questionam a eficácia e os riscos da política

Steven Dudley, diretor da InSight Crime, critica a designação de terroristas para grupos que não possuem todas as características de organizações terroristas. Ele argumenta que essa classificação pode gerar mais problemas, abrindo portas para conflitos internacionais devido a diferentes interpretações sobre jurisdição e ação.

“Grupos que não têm características de organizações terroristas não deveriam ser classificados dessa forma. Há maneiras de fazer frente a grupos terroristas, mas não são as formas mais eficazes de enfrentar uma organização criminosa”, afirma Dudley. Para ele, a medida pode facilitar a perseguição penal, mas não necessariamente combater o crime organizado de forma efetiva.

Juan Martens, doutor em Criminologia, ressalta que essa política pode diminuir as salvaguardas do direito penal liberal, provando ser um fracasso, assim como a guerra contra as drogas no México. Ele sugere que a intenção pode ser preparar a população para aceitar certas narrativas, em vez de resolver o problema do crime organizado.

Equador e os resultados da ‘guerra contra o crime’

Fernando Carrión, professor equatoriano, analisa que os números no Equador não justificam a mudança de classificação. Ele observa que, após a declaração de conflito armado interno pelo presidente Daniel Noboa, a taxa de homicídios caiu de 44 para 31 por 100 mil habitantes em cerca de um ano. No entanto, ele levanta a hipótese de que essa queda inicial se deve mais a um recuo tático dos grupos do que a uma vitória definitiva.

Luis Carlos Córdova-Alarcón, professor da Universidade Central do Equador, aponta que a violência e o crime no país estão intrinsecamente ligados à base social e às gangues urbanas. Ele acredita que, ao classificar organizações como terroristas, especialmente pelos EUA, cria-se um adversário para justificar operações antiterroristas, sem necessariamente resolver a raiz do problema.

Ameaça à soberania e a necessidade de cooperação regional

Carolina Sampó, do Conicet, associa a decisão dos EUA à sua capacidade de exercer força na região, citando a intervenção na Venezuela. Ela considera que a designação de terroristas para o Cartel de los Soles e as acusações contra Nicolás Maduro violaram a soberania venezuelana, mesmo que posteriormente os EUA tenham recuado em algumas acusações.

Embora Sampó pondere que a designação de PCC e Comando Vermelho como terroristas não deva trazer riscos de intervenção estrangeira no Brasil como ocorreu na Venezuela, Juan Martens discorda. Ele alerta que um país com grupos classificados como terroristas se torna um alvo para intervenções de potências estrangeiras.

Martens defende o reforço da atuação conjunta dos países da região para combater os criminosos, sem a necessidade de mudar a classificação. Ele exemplifica a situação do Paraguai, que se tornou uma zona de conforto e centro logístico internacional para o PCC, facilitando a distribuição de drogas para o Brasil e a Argentina.

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