General Min Aung Hlaing deixa comando das Forças Armadas de Mianmar para concorrer à Presidência, cinco anos após golpe de Estado
Em uma manobra política significativa, o general Min Aung Hlaing, líder do golpe militar que derrubou o governo democraticamente eleito de Mianmar em 2021, renunciou ao comando das Forças Armadas nesta segunda-feira (30). A decisão visa permitir sua candidatura à Presidência, em um movimento que busca manter o controle militar sob a aparência de um governo civil.
A renúncia ocorre após eleições gerais realizadas entre dezembro e janeiro, vencidas por um partido apoiado pelos militares. O Partido de Solidariedade e Desenvolvimento da União (PSDU) conquistou a maioria dos assentos parlamentares, em um pleito criticado pelas Nações Unidas e diversos países como uma farsa.
O cenário em Mianmar é de profunda crise política e conflito. O golpe que depôs a líder eleita Aung San Suu Kyi desencadeou protestos massivos e uma guerra civil ainda em curso, que já resultou em pelo menos 93 mil mortos e mais de 3,6 milhões de deslocados, agravando a fragilizada economia do país, conforme estimativas citadas pela agência Reuters. As informações foram divulgadas pela Reuters.
Objetivo antigo: transição de líder militar para presidente
Analistas apontam que a aspiração de Min Aung Hlaing em se tornar presidente é um objetivo de longa data. “Sempre foi esse o plano: passar de líder militar a presidente”, afirmou o analista independente Htin Kyaw Aye à Reuters. A eleição presidencial em Mianmar é indireta, com votação no Parlamento.
Deputados da Câmara Baixa já indicaram dois nomes para a vice-presidência, incluindo o do próprio Min Aung Hlaing. A Câmara Alta ainda definirá outro candidato, e os três serão submetidos a votação para a escolha do presidente, cuja data ainda não foi anunciada. Essa estratégia visa consolidar o poder da junta militar.
Transferência de comando e o sucessor
Em cerimônia na capital Naypyitaw, o general Min Aung Hlaing transferiu o comando das Forças Armadas para Ye Win Oo, um oficial de sua confiança. Hlaing afirmou que continuará a servir “aos interesses do povo, das Forças Armadas e da nação”. Ye Win Oo, que integrava o círculo próximo de Hlaing, teve uma ascensão rápida, sendo nomeado chefe de inteligência em 2020 e promovido recentemente ao comando do Exército.
No entanto, a relativa inexperiência política de Ye Win Oo levanta dúvidas sobre a governabilidade em um período de intensa crise e tensão. “Desde o golpe, ele manteve a patente de general e ocupou pastas sensíveis da administração militar”, escreveu o Instituto de Estratégia e Política – Myanmar, um think tank sediado na Tailândia. “Mesmo assim, o general Ye Win Oo parece não possuir a vasta experiência de liderança que abrange tanto o comando em campo de batalha quanto a administração institucional.”
Um país em guerra civil e crise humanitária
O contexto em que Min Aung Hlaing busca a presidência é marcado por um conflito brutal. A repressão violenta aos protestos pós-golpe escalou para uma guerra civil que devasta o país. As consequências humanitárias são alarmantes, com um número crescente de mortos e deslocados, além de uma economia já debilitada.
As eleições recentes, das quais partidos de oposição como o de Aung San Suu Kyi foram excluídos, reforçam a percepção de que o processo eleitoral serve apenas para legitimar o regime militar. A estratégia de Min Aung Hlaing em assumir a presidência demonstra a intenção de manter o poder de forma duradoura, mesmo em meio à instabilidade generalizada.




