Japão aperta cerco contra infrações de ciclistas com novas multas; uso de fones e pedalar com uma mão são alvos
Após décadas de tolerância com a “anarquia” nas ciclovias e ruas, o Japão implementou, desde 1º de abril, uma série de multas mais rigorosas para ciclistas. A emenda à lei de trânsito de 1960 agora lista 113 infrações específicas para quem pedala, muitas delas focadas em comportamentos antes apenas advertidos verbalmente.
Essas novas regras buscam equiparar a disciplina de ciclistas à de motoristas, com o objetivo declarado de tornar as vias mais seguras. As penalidades variam, indo desde advertências até multas em dinheiro, com valores que podem atingir até 12.000 ienes (aproximadamente R$ 388).
A medida, que afeta ciclistas com mais de 16 anos, tem gerado debates e surpresa entre a população, acostumada a uma maior liberdade sobre duas rodas. Conforme informações divulgadas pelo Financial Times, a intenção é reduzir o número de acidentes, que em 75% dos casos envolvem ciclistas violando leis de trânsito.
Novas Proibições e Penalidades para Ciclistas no Japão
Entre as infrações que agora acarretam multas, destacam-se o uso de fones de ouvido, o pedalar com apenas uma mão, e o transporte de “carga mal acomodada”. A proibição do uso de sombrinhas enquanto se pedala também entrou em vigor, e condutores que exibirem direção instável podem enfrentar problemas legais.
Para se ter uma ideia, o uso indevido da campainha pode resultar em multa de 3.000 ienes (cerca de R$ 98), enquanto frenagens bruscas custam 6.000 ienes (aproximadamente R$ 194). Deixar a bicicleta em vagas reservadas para idosos pode gerar uma penalidade de 12.000 ienes (cerca de R$ 388).
Uma regra particularmente controversa é a exigência de que ciclistas circulem na via, e não nas calçadas. Exceções são feitas para crianças e pessoas com mais de 70 anos, mas a mudança deve forçar milhões a pedalar em ruas onde motoristas podem não estar acostumados a compartilhar o espaço.
Segurança vs. Arrecadação: O Debate em Torno das Novas Multas
Apesar de autoridades apontarem que o novo sistema visa salvar vidas, citando pesquisas que indicam infrações em 75% dos acidentes, parte da mídia e da população questiona a medida. Alguns a veem como uma nova forma de arrecadação governamental, especialmente em um contexto de queda no número de acidentes e criminalidade no Japão.
Um ciclista em Tóquio, que preferiu não se identificar, foi multado por pedalar sem luz e comentou que “o número de acidentes está caindo, assim como a criminalidade no Japão. A polícia apenas inventou mais algo para fazer”.
No entanto, uma pesquisa da seguradora Sompo revelou que 64,5% dos adultos japoneses aprovam o novo sistema de multas, embora apenas 16,5% afirmem compreender todos os detalhes das novas regras de trânsito.
Contexto Histórico e Estatísticas do Ciclismo no Japão
Por décadas, o Japão presenciou um tráfego de bicicletas com pouca regulamentação, onde licenças não eram exigidas e a interferência das autoridades era mínima. Segundo o censo de 2020, cerca de oito milhões de japoneses utilizam bicicletas diariamente para ir ao trabalho ou à escola, evidenciando a importância do modal no país.
Nos últimos 20 anos, o número de ciclistas no Japão diminuiu cerca de 25%, enquanto os acidentes envolvendo bicicletas caíram aproximadamente 60%, totalizando 67.470 no ano passado. Mais de 75% desses acidentes foram colisões entre carros e bicicletas, e cerca de 3.000 envolveram pedestres.
Ciclovias e a Realidade das Ruas Japonesas
A infraestrutura para ciclistas no Japão ainda é um ponto de atenção. Até 2023, a região metropolitana de Tóquio contava com apenas 51 km de ciclovias, com planos para mais 26 km, cujo status de construção não foi confirmado. Frequentemente, as ciclovias existentes são bloqueadas por carros estacionados, criando desafios adicionais para os ciclistas.
A nova legislação, ao forçar ciclistas para as vias, pode intensificar a necessidade de melhorias na infraestrutura e de uma maior conscientização por parte de motoristas sobre a convivência segura no trânsito.





