A Hungria encerra um ciclo político marcante com a derrota de Viktor Orbán, que governou o país por 16 anos ininterruptos. A mudança de guarda no poder húngaro abre um novo capítulo, pautado por desafios internos e pela relação com a União Europeia.
A noite de domingo marcou o fim de uma era para a Hungria. Viktor Orbán, após quatro mandatos parlamentares e 16 anos consolidados no poder, admitiu a derrota de seu partido, o Fidesz. Esta retirada do cenário político húngaro não é um fato trivial, especialmente considerando as profundas alterações no sistema eleitoral promovidas para favorecer o então primeiro-ministro ao longo de seus governos.
Desde 2010, com uma vitória expressiva que garantiu ao Fidesz uma maioria qualificada no Parlamento, Orbán iniciou a construção de uma chamada ‘democracia iliberal’. Este modelo político envolveu um desmonte sistemático das instituições que tradicionalmente atuam como freios e contrapesos ao poder executivo. A transformação se estendeu pelas esferas política, social e cultural, culminando em uma nova Constituição promulgada em 2012.
O regime de Orbán foi caracterizado por um pragmatismo na busca pela maximização do poder, com inspirações declaradas em modelos russos e relações por vezes tensas com as instituições europeias, ainda que mantivesse laços próximos com a Rússia. Conforme relatado, a Hungria, sob sua liderança, tornou-se um exemplo de exportação de um repertório constitucional flexível, cujas medidas frequentemente desafiavam os padrões europeus de direitos humanos, o que, paradoxalmente, parecia aumentar sua atração para outros países. Orbán evoluiu de um expoente regional da democracia iliberal para um símbolo global da autocratização com verniz nacionalista e cristão, conquistando admiração de figuras como Donald Trump e os Bolsonaros. A receita de seu sucesso envolvia a formação de redes transnacionais de conservadores, intelectuais e influenciadores, com eventos como a CPAC Hungria servindo de vitrine para a política conservadora internacional, contando inclusive com a participação de Eduardo Bolsonaro e Javier Milei. Relatos indicam que a campanha do Fidesz contou com desinformação russa e consultoria eleitoral operando a partir da embaixada russa em Budapeste. A informação é baseada em análise de fontes jornalísticas e relatos de eventos políticos.
O Novo Cenário Político Húngaro
O vitorioso nas urnas, o partido Tisza, liderado por Péter Magyar, representa uma novidade no panorama político húngaro. Magyar, que possui ligações prévias com círculos próximos ao Fidesz, apresenta uma plataforma que, embora socialmente conservadora, se posiciona claramente a favor da União Europeia. Importante notar que Magyar não é um progressista, e o Parlamento húngaro permanece dividido entre a oposição de direita e a extrema-direita.
O Tisza opera mais como um movimento político do que como um partido tradicionalmente estruturado. A expressiva vitória do Tisza se deve, em grande parte, ao empenho de seu líder e de milhares de ativistas que conseguiram mobilizar eleitores, inclusive em redutos historicamente fiéis ao Fidesz.
A campanha de Magyar focou em promessas de mudança de regime, com combate à corrupção, maior transparência nas contas públicas, melhoria dos serviços públicos e uma redistribuição mais justa de recursos. O retorno à Europa também foi um pilar central de sua mensagem.
Desafios para a Nova Gestão
Para que o Tisza consiga efetivamente restaurar a democracia constitucional, será necessário reverter a concentração de poderes no Executivo, incluindo os de emergência. Outros desafios incluem a necessidade de reformar um Tribunal Constitucional considerado capturado, revogar leis que afetam negativamente organizações da sociedade civil e a comunidade LGBTQIA+, e lidar com a concentração da propriedade da mídia e restrições à liberdade de reunião, além de reformar o sistema eleitoral.
O legado de Viktor Orbán e a estrutura política do Fidesz representam um desafio considerável para o novo governo. A situação econômica da Hungria é descrita como dramática, com recursos concentrados nas mãos de empresários alinhados ao Fidesz, em um contexto frequentemente comparado a um ‘Estado mafioso’, enquanto os serviços públicos sofrem com a deterioração. A dependência do petróleo russo agrava ainda mais o quadro.
A liberação de fundos da União Europeia pode oferecer algum alívio, mas não resolverá os problemas financeiros do novo governo. A integração europeia demandará o retorno à operação sob regras e restrições que a equipe húngara em Bruxelas precisará reaprender a seguir.
O Risco da Vingança e a Celebração da Mudança
A maioria qualificada que o Tisza projeta ter no Parlamento facilitará a aprovação de reformas legais e constitucionais. Contudo, a tentação de exercer um poder quase ilimitado pode ser forte, e a busca por transparência pode, em um ambiente de ânimos exaltados, transformar-se em uma política de vingança.
No momento em que Viktor Orbán reconheceu publicamente a derrota, a reação inicial do campo do Tisza foi de um silêncio notável, seguido por uma celebração que demorou a se consolidar. Nas ruas de Budapeste, o grito de guerra ‘Fidesz sujo!’ foi substituído por ‘Europa! Europa!’, um eco simbólico da mudança de regime, ocorrendo exatamente 23 anos após o referendo que selou a entrada da Hungria na União Europeia.





