Governo Kast intensifica medidas contra imigrantes, gerando clima de medo e incerteza no Chile
Desde a posse do presidente ultradireitista José Antonio Kast, imigrantes no Chile relatam uma rotina de medo e aumento da xenofobia. A retórica de campanha, que prometia a expulsão de estrangeiros em situação irregular, tem se traduzido em ações concretas, preocupando aqueles que buscam uma vida melhor no país.
Muitos têm mudado seus hábitos, andando sempre com documentos em mãos, temendo abordagens policiais. A sensação de que imigrantes se tornaram bodes expiatórios para os problemas chilenos é unânime entre os estrangeiros entrevistados.
O cenário atual tem levado muitos a considerar deixar o país, buscando um ambiente mais acolhedor. As primeiras ações do governo e o discurso político têm agravado a estigmatização, segundo relatos de quem vive no Chile há anos. Conforme informação divulgada pela Folha de S.Paulo, 2.180 venezuelanos deixaram o país desde a eleição de Kast.
Aumento da xenofobia e medo constante
O venezuelano Roberto Delgado Gil, 41, que vive no Chile há uma década, observa um aumento significativo da estigmatização. Ele afirma que, mesmo quem reside legalmente no país, como ele, sente o peso do preconceito. “Você anda na rua tentando ser invisível, com medo de ser julgado pelo sotaque ou pela aparência”, relata.
Gil também aponta a tensão gerada pelas novas medidas. Ele menciona o caso da esposa de um mecânico sem documentos que trabalha consertando viaturas policiais, exemplificando a “tensão constante” vivida por muitos. Mães venezuelanas com filhos chilenos temem a separação familiar.
Deportações e endurecimento de fronteiras
Uma das medidas mais recentes que gerou apreensão foi o primeiro voo de deportação, que levou 40 estrangeiros de Iquique para Bolívia, Colômbia e Equador. O governo chileno anunciou que este é “o primeiro de muitos” voos do tipo.
Dos deportados, 15 foram expulsos por ordem judicial por crimes como roubo e tráfico de drogas. Os outros 25 enfrentavam processos administrativos. O governo também ordenou a construção de muros e valas na fronteira norte, rota utilizada por imigrantes, em uma estratégia que lembra a adotada pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump.
Crescimento da imigração e desafios de regularização
O Chile viu um crescimento expressivo de sua população imigrante nas últimas décadas. Em 2010, eram cerca de 305 mil estrangeiros, saltando para 1,3 milhão em 2018. A partir de 2019, com a crise na Venezuela, os venezuelanos se tornaram a principal nacionalidade estrangeira, representando 38% dos imigrantes em 2023, segundo dados do governo.
A professora Clara (nome fictício), 40, que entrou no Chile em 2021, relata a perigosa travessia que incluiu cruzar rios e dormir em galpões. Ela, que teve seu pedido de refúgio negado e aguarda uma regularização extraordinária, anda sempre com uma pasta contendo cópias de seus documentos.
“Para eles, os imigrantes, especialmente os venezuelanos, foram apontados como culpados por sequestros, assassinatos, tudo de ruim”, afirma Clara, descrevendo o impacto do discurso político em sua vida. Sua mãe, que trabalha no comércio, também sente o aumento da presença policial e o medo constante.
Legislação e políticas de imigração
A entrada irregular no Chile é uma infração administrativa, não um crime. No entanto, o novo governo busca criminalizar a entrada de pessoas sem documentos e suspendeu a regularização de 182 mil imigrantes, processo iniciado pelo antecessor. A justificativa é que 6.000 dessas pessoas já cometeram delitos.
O professor José Ragas, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, considera as propostas do governo Kast improvisadas e o plano fronteiriço carente de estudo técnico. Ele compara a estratégia atual com tentativas anteriores de dificultar a regularização, o que, em sua visão, não impede a permanência, mas gera mais precariedade e informalidade para os imigrantes.





