Peru: Economia Blindada pela Crise Política, Mas Desigualdade Persiste e Preocupa
O próximo presidente do Peru enfrentará um cenário político turbulento, com um Congresso fragmentado, ameaças de protestos e um aumento na criminalidade. No entanto, a macroeconomia, surpreendentemente, não deverá ser uma de suas maiores preocupações.
Essa resiliência econômica se deve a uma combinação de fatores estruturais, como a forte base de exportação de minérios, a independência do Banco Central e um rígido marco fiscal. Esses elementos criaram uma separação entre a economia e a política, protegendo o país de choques internos.
Apesar da estabilidade macroeconômica, o Peru luta contra uma das maiores taxas de informalidade da América Latina e um alto grau de concentração de renda. Esses desafios sociais e econômicos persistem, apesar do desempenho robusto da economia. Conforme informações divulgadas pelo professor emérito de economia da PUC do Peru, Efraín Gonzales de Olarte, esses são os pilares que sustentam a economia peruana.
Pilares da Estabilidade Econômica Peruana
A economia do Peru é fortemente ancorada na agricultura e, principalmente, na mineração. Em 2025, este setor foi responsável por impressionantes 87,4% das exportações de bens primários, incluindo chumbo, zinco, ouro e cobre. Essa dependência do comércio exterior, mais do que da conjuntura interna, blindou a economia peruana das oscilações políticas.
O cenário global, por vezes instável, também beneficiou o Peru. O preço do ouro, por exemplo, quadruplicou desde 2016, impulsionando as exportações. Além disso, o país possui uma diversificada carteira de parceiros comerciais, com China, Estados Unidos, Japão, Espanha e Holanda como principais importadores, o que confere uma camada adicional de estabilidade.
Grandes empresas que atuam no Peru, muitas delas multinacionais como a mineradora chinesa Shougang Hierro Perú e a cervejaria Backus & Johnston, são menos sensíveis a abalos políticos internos. Segundo Olarte, a maioria dessas grandes empresas é de propriedade estrangeira e não se envolve diretamente na política peruana.
Independência do Banco Central e Legado Fiscal
A independência do Banco Central do Peru é crucial para a manutenção da estabilidade monetária. Isso permite que as políticas sejam baseadas na realidade econômica do país, sem influências políticas de curto prazo. Olarte destaca que, graças a essa independência e boa gestão, o Peru não tem enfrentado grandes choques inflacionários.
A inflação peruana, na maior parte da última década, manteve-se abaixo da brasileira. A Lei de Prudência e Transparência Fiscal, uma herança da ditadura de Alberto Fujimori, estabelece limites rígidos para o déficit fiscal e o aumento das despesas governamentais, contribuindo para o equilíbrio das contas públicas.
Essa lei, alinhada à Constituição de 1993, define o papel subsidiário do Estado, limitando sua intervenção onde a iniciativa privada pode atuar. Esse princípio, influenciado pelo Consenso de Washington, reduziu a participação do Estado na economia, de 40% do PIB na ditadura militar para cerca de 17% atualmente.
A Persistente Desigualdade Social
Apesar da solidez macroeconômica, o Peru figura entre as nações mais desiguais da América Latina. Dados do World Inequality Database mostram que os ganhos do 1% mais rico do país representam 27,6% da renda total em 2024. A taxa de informalidade, segundo a Organização Internacional do Trabalho, é uma das mais altas da região, atingindo 71,4% em 2024.
Olarte aponta que o modelo econômico, embora estável, não conseguiu reduzir a desigualdade e, pior, aumentou a informalidade. Ele sugere que a alta informalidade explica, em parte, o elevado número de candidaturas presidenciais, refletindo a fragmentação política e a ausência de organizações sociais fortes ligadas a partidos.
O modelo peruano, com um Estado pequeno em um país altamente desigual, é visto por especialistas como uma fórmula inadequada para a estabilidade nacional e o desenvolvimento. Esse contraste entre uma economia blindada e uma sociedade marcada pela desigualdade é um dos principais dilemas do Peru.





