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Filhos de Tchernóbil no Brasil: O Legado de Amor e Solidariedade que Cruzou Oceanos

A história dos ‘filhos de Tchernóbil’ acolhidos no Brasil: um legado de esperança e superação

No final dos anos 1990, um programa humanitário uniu o Brasil e a Ucrânia, trazendo esperança para crianças afetadas pelo trágico acidente nuclear de Tchernóbil. O projeto, idealizado pelo então embaixador do Brasil na Ucrânia, Mário Augusto Santos, e executado pela Representação Central Ucraniano-Brasileira, liderada por Jose Welgacz, proporcionou tratamento médico complementar para jovens ucranianos em Curitiba, no Paraná.

Essas crianças, nascidas após o desastre de 1986, sofriam com problemas de saúde decorrentes da radiação. A iniciativa brasileira, inspirada em um programa similar em Cuba, foi totalmente financiada pela comunidade ucraniana no Paraná, demonstrando a força da solidariedade e o desejo de ajudar aqueles em necessidade, conforme informações divulgadas na época.

A experiência marcou profundamente a vida de todos os envolvidos, desde as famílias que abriram seus lares com amor e carinho até as próprias crianças, que encontraram no Brasil um refúgio de acolhimento e cuidado. O legado desse programa vai além do tratamento médico, sendo um testemunho da capacidade humana de superar adversidades e construir pontes de afeto entre diferentes culturas.

Um ato de amor e cuidado: Dasha e a família Welgacz

Tânia Regina Welgacz relembra com emoção a época em que abrigou Dasha, uma menina ucraniana de 9 anos, em sua casa. Inicialmente, Dasha deveria ter ficado com outra família, mas um imprevisto a levou para o cuidado de Tânia e sua mãe, Eleutéria Zadorosny Welgacz. “Foi a experiência mais maravilhosa da minha vida, eu me emociono até hoje”, relata Tânia, descrevendo o vínculo especial que se formou.

A menina, que chegou ao Brasil com um álbum de fotos da família, aos poucos foi se soltando, sentindo-se segura e amada. Tânia enfatiza a importância de redobrar o afeto e a atenção para com as crianças, cujos pais estavam longe. “É um amor fora de série. Todas essas crianças receberam um amor especial das famílias que cuidaram delas”, conta.

O Programa Crianças de Tchernóbil: uma ponte de esperança

Em fevereiro de 1999, as primeiras cinco crianças, acompanhadas por um profissional de saúde, desembarcaram em Curitiba. Ao longo daquele ano, outros dois grupos foram recebidos, totalizando 15 crianças com idades entre 7 e 12 anos. O programa oferecia acompanhamento médico complementar por pouco mais de dois meses, em um acordo com o Hospital Evangélico da cidade.

Jose Welgacz, presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira, buscou igrejas ucranianas para mobilizar famílias voluntárias e arrecadar fundos. A comunidade ucraniana no Paraná financiou integralmente o projeto, incluindo os custos das passagens aéreas. “Foi muito emotivo. Foi uma experiência muito interessante”, recorda Welgacz.

Desafios e superações no acolhimento

Um dos desafios iniciais foi convencer os pais ucranianos a enviarem seus filhos, que tinham uma visão limitada sobre o Brasil. Para as famílias brasileiras, a falta de transparência sobre os tratamentos e as questões financeiras foram obstáculos. Algumas famílias tinham mais condições de arcar com os custos diários e passeios, o que, ocasionalmente, gerava comparações entre as crianças, conforme aponta a historiadora Tatiana Marchette.

A comunicação também apresentou barreiras. O idioma ucraniano falado pelas crianças, influenciado pelo russo, era diferente do dialeto mais antigo e colonial falado por algumas famílias brasileiras. Apesar das dificuldades, a experiência deixou marcas positivas, e muitas famílias lamentam não ter mantido contato com as crianças que acolheram.

Um legado que se expande: treinamento médico para transplante de medula

No final do programa, surgiu a ideia de expandir a iniciativa para o treinamento de médicos ucranianos no Brasil, especialmente em transplante de medula óssea. Um profissional de saúde que acompanhou as crianças sugeriu que médicos da Ucrânia viessem ao país para se especializar no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

O programa foi encerrado em 2000, após a morte de um menino ucraniano que permaneceu internado em Curitiba e não teve acesso a medicamentos essenciais ao retornar para seu país. A comunidade ucraniana, em um esforço para viabilizar o tratamento, chegou a arrecadar fundos para trazer os pais do menino ao Brasil. A morte do garoto abalou os envolvidos e levou ao encerramento do projeto, mas o legado de solidariedade e a busca por aprimoramento médico continuaram, com um grupo de profissionais ucranianos vindo ao Brasil para treinamento em transplante de medula óssea naquele mesmo ano.

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