Ditaduras se Fortalecem com Profissionais Medianos em Busca de Ascensão, Revela Estudo Pioneiro
A consolidação e manutenção de regimes autoritários, muitas vezes, não dependem de fervor ideológico ou terror extremo, mas sim de um mecanismo surpreendentemente comum: a ambição profissional de indivíduos medianos. Uma nova pesquisa, baseada em dados da Guerra Suja argentina, sugere que a busca por promoções e a superação de carreiras estagnadas são fatores cruciais para recrutar e manter a lealdade de funcionários em níveis inferiores e intermediários de ditaduras.
O estudo, intitulado “Making a Career in Dictatorship”, dos cientistas políticos Adam Scharpf e Christian Glassel, investiga como líderes autocráticos recrutam e incentivam a participação de pessoas em suas estruturas de poder. Ao contrário de suposições anteriores sobre extremismo ou medo, a pesquisa aponta para uma explicação mais prosaica, ligada à dinâmica de carreira comum em qualquer ambiente de trabalho.
Essas descobertas, que cruzam a análise da “banalidade do mal” de Hannah Arendt com estratégias de gestão de desempenho, têm implicações significativas para a compreensão da estabilidade de regimes autoritários em todo o mundo, incluindo democracias que enfrentam desafios. A pesquisa foi divulgada com base em informações do The New York Times Company.
A “Caixa Preta” do Recrutamento Autoritário Desvendada
Por muito tempo, a forma como os regimes autoritários garantiam a cooperação de seus quadros inferiores permaneceu como uma “caixa preta” para os pesquisadores. A suposição predominante era de que o alinhamento ideológico, o medo de punição, ou uma combinação de ambos, seriam os principais motivadores. No entanto, o estudo de Scharpf e Glassel, focado nas Forças Armadas argentinas durante as décadas de 1970 e 1980, oferece uma perspectiva radicalmente diferente.
Os pesquisadores analisaram um extenso conjunto de dados sobre a trajetória de oficiais militares argentinos, incluindo classificações de formatura, promoções e aposentadorias. Eles identificaram que o Batalhão de Inteligência 601, responsável por parte do “trabalho sujo” da ditadura, serviu como um desvio para oficiais com desempenho insatisfatório em suas carreiras regulares.
Esses indivíduos, descritos como “sob pressão de carreira”, encontravam no serviço de inteligência uma oportunidade de contornar a hierarquia tradicional e alcançar promoções e sucesso profissional que de outra forma seriam inatingíveis. O estudo concluiu que quanto pior o histórico acadêmico de um oficial, maior a probabilidade de ele ser direcionado para o Batalhão 601.
“Fracassados Leais”: A Base da Pirâmide Autocrática
A pesquisa sugere que aspirantes a autoritários não precisam preencher seus regimes com crentes fervorosos ou impor punições draconianas. A chave reside em identificar e atrair um grupo específico de trabalhadores: os frustrados e medíocres, que buscam uma chance de “subir na vida”.
O trabalho em unidades mais brutais, como as de tortura e assassinato, embora moralmente repulsivo, oferecia recompensas de carreira mais significativas. Um período atuando como executor podia reabilitar até mesmo o desempenho mais desastroso, abrindo portas para promoções e uma melhor situação financeira e de aposentadoria.
Essa dinâmica não se limita à Argentina. O estudo cita exemplos como a burocracia nazista, onde comandantes de esquadrões de extermínio frequentemente possuíam históricos desfavoráveis e o serviço zeloso impulsionava suas carreiras. Na União Soviética, a NKVD também “recrutava deliberadamente indivíduos com poucas habilidades e conhecimento formal”, muitas vezes promovendo competição entre escritórios para ver quem realizava mais prisões.
Implicações para Democracias Atuais, Incluindo os EUA
As conclusões do estudo têm implicações diretas para a saúde das democracias contemporâneas. A pesquisadora Erica Frantz, da Michigan State University, especializada em erosão democrática, observa paralelos com a ascensão de líderes autocráticos eleitos, como Viktor Orbán na Hungria, que transformou o país em uma “autocracia eleitoral”.
Especialistas apontam que Orbán contou com aliados no topo e uma parcela de ambiciosos em posições intermediárias que viam a política como um caminho para o sucesso. O Escritório Nacional do Judiciário húngaro, por exemplo, foi centralizado sob o controle de uma aliada de Orbán, com uma pequena porcentagem de juízes “carreiristas” executando a agenda do governo para avançar.
Nos Estados Unidos, especialistas como Frantz veem preocupações com a deterioração democrática, especialmente durante o segundo mandato de Donald Trump. A remodelação do Partido Republicano em torno de sua figura e a nomeação de indivíduos cujos currículos poderiam não garantir cargos em outras administrações levantam questionamentos. A tentativa de obter controle político sobre as Forças Armadas, o FBI e o ICE é vista como um sinal preocupante, indicando um estágio mais avançado de transição para o autoritarismo.
O Papel do ICE e a “Segunda Escada” Profissional
Scharpf e Glassel expressam preocupação com a expansão planejada do ICE (Imigração e Alfândega dos EUA), que poderia se tornar um terreno fértil para desvios de carreira e uso antidemocrático. A fórmula para criar um aparato de segurança leal, segundo os autores, envolve a criação ou reaproveitamento de uma instituição que funcione como uma “segunda escada” de promoção profissional, com financiamento generoso e barreiras de entrada reduzidas.
Cortes em outros empregos públicos e restrições orçamentárias podem ampliar o grupo de potenciais recrutas. A sensação de impunidade transmitida pela liderança garante que esses indivíduos não temam consequências por atos ilegais. O ICE, com um orçamento proposto que superaria o de outras agências federais, e a redução de empregos em outras áreas, além de declarações de “imunidade” a agentes, parecem se encaixar nesse perfil.
A facilidade crescente para se tornar um agente do ICE, com a redução de avaliações práticas no treinamento, representa uma oportunidade de carreira para quem busca ascensão, alinhando-se com a tese de que regimes autoritários se nutrem da ambição de profissionais medianos. As ações do governo Trump em relação ao ICE, somadas à invasão do Capitólio, reforçam a preocupação com a formação de um aparato de segurança leal e potentemente antidemocrático.





