Almodóvar em “tribunal contra si mesmo”: “Natal Amargo” é autoficção complexa e frustrante
Pedro Almodóvar, aos 76 anos, volta à sua língua natal e à Espanha com “Natal Amargo”, seu 24º longa-metragem. Após “O Quarto ao Lado”, falado em inglês, o diretor promete uma obra onde ele se confronta de maneira cruel consigo mesmo, um verdadeiro “tribunal contra si próprio”. O filme estreou internacionalmente no Festival de Cannes e chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio.
A proposta era ambiciosa: mergulhar nas memórias e na própria carreira, expondo as dores e os desafios da criação artística. No entanto, conforme análise do g1, o resultado é um filme “truncado” e que, apesar de toda a metalinguagem e das piscadelas ao público, se mostra pouco cativante.
A obra acompanha dois cineastas: Elsa (Bárbara Lennie), que migrou para a publicidade após falta de sucesso, e Raúl (Leonardo Sbaraglia), um diretor de prestígio em crise criativa, que pode ser interpretado como um alter ego de Almodóvar. A narrativa explora a relação entre criador e criatura, com a jornada de Elsa sendo moldada pela mente de Raúl, em uma complexa estrutura de filme dentro de filme. Conforme informação divulgada pelo g1, essa metalinguagem não é novidade na filmografia do diretor, que já a explorou em “A Lei do Desejo”, “Má Educação” e “Dor e Glória”.
A complexidade que confunde o espectador
Em “Natal Amargo”, Almodóvar salta entre 2004 e 2026, transformando personagens e criando um jogo de espelhos que exige grande esforço do espectador para ser compreendido. A linha narrativa se torna “truncada”, dificultando a identificação de quem inspira quem e o quanto do próprio Almodóvar está presente na tela. Essa dificuldade em acompanhar as múltiplas camadas narrativas contribui para a sensação de um filme pouco envolvente.
Estética impecável, mas com falta de profundidade
O filme entrega o que se espera de um “almodrama” em termos estéticos: enquadramentos belíssimos, direção de arte primorosa e uma paleta de cores vibrantes que hipnotiza. As garrafas azuis, as poltronas amarelas e os casacos vermelhos criam um universo visualmente deslumbrante. Almodóvar também dosou o drama com humor, como em falas que questionam sua própria carreira e a possibilidade de fazer filmes para plataformas de streaming, que o diretor nega.
Reflexões sobre a criatividade e o custo humano
O diretor coloca em cena reflexões sobre o medo da decadência, a falta de criatividade e a dificuldade em encontrar novas histórias, temas que ele mesmo tem enfrentado. A sinopse oficial descreve o protagonista como alguém “capaz de vender a alma ao diabo desde que continue a ver a linha vertical, o cursor piscante do computador, vivo, que o levará a escrever uma história que nem ele mesmo conhece e pela qual está disposto a tudo”.
Expectativa criada e não cumprida
A ousadia de Almodóvar em propor reflexões sobre sua própria trajetória e o custo humano de sua arte é reconhecida. No entanto, a expectativa de um mergulho profundo e autocrítico, criada pelo próprio cineasta, parece não ser plenamente atendida. O filme é visto como um exercício de metalinguagem que carece de mais honestidade, esquivando-se de confrontar as próprias dores de forma mais contundente. A análise aponta que, embora os personagens admitam penar para encontrar novas histórias, eles escrevem não por saber o que dizer, mas por precisar descobrir, um ponto que, para a crítica, enfraquece a proposta de “tribunal contra si mesmo”.





