Coupang, a gigante do e-commerce sul-coreana, está no centro de uma disputa que abala a relação entre Estados Unidos e Coreia do Sul. O que começou como uma investigação de vazamento de dados se transformou em um embate diplomático, com acusações mútuas e o futuro da aliança em xeque.
A lua de mel entre Seul e Washington, celebrada com um acordo histórico em novembro, parece ter chegado ao fim abruptamente. A empresa Coupang, frequentemente comparada à Amazon por sua dominância no mercado sul-coreano, tornou-se o inesperado ponto de atrito entre as duas nações aliadas.
O caso ganhou proporções internacionais após um massivo vazamento de dados que afetou 33 milhões de clientes na Coreia do Sul. A investigação, iniciada por reguladores sul-coreanos, rapidamente escalou para um teste da relação bilateral, visto que a Coupang, apesar de sua forte identidade local, é juridicamente uma empresa americana.
Conforme apurado pelo The New York Times Company, a Coupang alega que o governo de Seul está utilizando a regulação como uma arma contra uma empresa dos EUA, buscando apoio em Washington e argumentando que companhias americanas estão sendo tratadas de forma mais rigorosa do que concorrentes chineses. As autoridades sul-coreanas, por outro lado, afirmam que todas as ações seguem o devido processo legal.
Parlamentares americanos pressionam Seul em defesa da Coupang
A tensão atingiu um novo patamar com uma carta enviada por 54 parlamentares republicanos ao embaixador sul-coreano em Washington. Na missiva, os congressistas acusam o governo de Seul de um tratamento “direcionado e discriminatório” contra a Coupang e outras empresas de tecnologia americanas, alertando que tal postura ameaça os interesses econômicos e de segurança dos Estados Unidos.
A carta, datada do mês passado, expressa preocupação com o potencial vácuo de mercado que seria criado caso empresas americanas fossem expulsas, abrindo espaço para plataformas chinesas como Temu, Alibaba e Shein. “A dominância delas na região teria consequências de segurança inaceitáveis”, alertaram os parlamentares.
Durante sua audiência de confirmação no Senado, Michelle Steel, indicada para ser a próxima embaixadora dos EUA em Seul, foi questionada sobre o caso. Ela assegurou que o acordo de novembro entre os presidentes Donald Trump e Lee Jae-myung veda esse tipo de discriminação e prometeu acompanhar o tema “de forma muito clara”.
Coreia do Sul rebate acusações e defende soberania regulatória
A resposta de Seul não tardou e veio com a mesma intensidade. Woo Won-shik, presidente da Assembleia Nacional sul-coreana, classificou a carta dos congressistas americanos como um “caso evidente de ingerência em assuntos internos e é inaceitável”. Dezenas de parlamentares sul-coreanos endossaram essa visão, enviando uma contra-carta à embaixada dos EUA, na qual afirmam que a pressão de Washington “coloca em dúvida a própria integridade e os fundamentos da aliança” bilateral.
Enquanto o embate diplomático se intensifica, as promessas mais ambiciosas do acordo entre os líderes dos dois países parecem patinar. Os “centenas de bilhões de dólares” que a Coreia do Sul se comprometeu a investir em setores americanos ainda não se materializaram, e as negociações sobre o apoio dos EUA no desenvolvimento de submarinos nucleares seguem incertas.
Bom Kim, fundador da Coupang, no centro da controvérsia
No epicentro da crise está Bom Kim, o fundador da Coupang. Nascido na Coreia do Sul, Kim fundou a empresa em 2010 e, para o público local, a Coupang é vista como um negócio nacional, com seus icônicos caminhões de “Rocket Delivery” sendo uma presença constante nas cidades. No entanto, a empresa insiste em se apresentar como uma companhia americana.
O vazamento de dados, que ocorreu em junho e só foi detectado em novembro, intensificou o escrutínio sobre a empresa. A Coupang alegou ter cooperado integralmente com a investigação, rastreando um ex-funcionário até a China e recuperando o laptop usado no ataque. A empresa pediu desculpas várias vezes, e o presidente da subsidiária local renunciou.
Contudo, na cultura corporativa sul-coreana, esperava-se uma manifestação mais enfática do CEO da holding, Bom Kim. Seu pedido de desculpas, divulgado em 28 de dezembro, acompanhado de uma oferta de US$ 1,1 bilhão em cupons, foi considerado tardio e insuficiente por muitos. “Ele continua na sombra, colocando à frente o representante americano que nem fala a língua, no sentido literal e figurado”, criticou Junghee Cho, sócia do escritório D.Code Law Group, indicando uma percepção de que a empresa busca se esquivar da responsabilidade.
Desgaste na aliança e percepções ideológicas
Reguladores sul-coreanos negam qualquer viés contra empresas americanas e já haviam aberto investigações sobre infrações concorrenciais, problemas fiscais e condições de trabalho na Coupang. Kim também enfrentou críticas por recusar convites para depor em audiências públicas no Parlamento sul-coreano.
Para muitos em Seul, o caso Coupang reflete um desgaste mais profundo na percepção da aliança com Washington. Uma parcela crescente da população vê a relação como assimétrica e, por vezes, predatória, especialmente sob a administração Trump. Especialistas apontam que grupos conservadores americanos têm utilizado episódios como este, somados a políticas internas sul-coreanas, como prova de que Seul estaria se afastando de “valores americanos”, o que leva a acusações de que o governo sul-coreano seria “pró-Coreia do Norte” ou “pró-China”.
Apesar dos esforços do governo sul-coreano em reforçar a aliança, críticos insistem em analisar a Coreia do Sul através de um filtro ideológico ultrapassado, ignorando os esforços de aproximação com Washington. O caso Coupang, portanto, transcende a esfera comercial, atuando como um termômetro das complexas e, por vezes, tensas relações entre os dois países.





