Autor argentino Leonardo Tarifeño alerta: o drama das fronteiras transcendeu limites geográficos, transformando nações inteiras em zonas de conflito e desamparo.
Em uma conversa franca em São Paulo, o jornalista argentino Leonardo Tarifeño, radicado no México há mais de uma década, compartilhou a angústia que o levou a escrever “Não Volte”. O livro reúne histórias comoventes de mexicanos deportados dos Estados Unidos, um retrato pungente da crise migratória contemporânea.
Tarifeño, especialista em música e cultura, sentiu-se inicialmente deslocado ao mergulhar nesse universo. No entanto, dedicou um ano acompanhando, com o coração apertado, as narrativas de vidas interrompidas pela necessidade de migrar, um tema que, segundo ele, ecoa em diversas partes do globo.
A obra “Não Volte” é fruto de centenas de entrevistas com deportados mexicanos e já está disponível no Brasil pela editora Kipuka. O autor participará de eventos de lançamento no Rio de Janeiro e na Feira do Livro de São Paulo, oferecendo um olhar profundo sobre a temática. Conforme relatado pelo autor, “Em Tijuana é mais barato se drogar do que comer”, uma frase que ilustra a desesperadora realidade enfrentada por muitos.
Influências e a Necessidade de Contar Histórias
A escrita de Tarifeño é profundamente influenciada por dois grandes nomes da literatura mexicana: Sergio Gonzálvez Rodrígues e Juan Villoro. Rodrígues, com sua investigação jornalística sobre as violências extremas no México, como massacres promovidos por cartéis e desaparecimentos, antecipou o endurecimento das operações migratórias nos EUA.
Já Villoro ofereceu a Tarifeño uma chave mais íntima, a de partir da própria experiência. A percepção de que mesmo sua companheira mexicana não suportava mais ouvir as histórias de violência, fome e abusos contra imigrantes o impulsionou a escrever. “Se nem alguém tão próximo a mim conseguia suportar essas histórias, imagine o quanto elas precisavam ser contadas”, declarou o autor.
O Mundo “Fronteirizado” e a Desumanização
Sob a inspiração de Rodrígues, Tarifeño chegou à conclusão de que o mundo se tornou “fronteirizado”. O próprio México, em sua totalidade, transformou-se em uma fronteira. Essa realidade não se restringe a um único país, mas se manifesta em centros urbanos como São Paulo.
Ao caminhar pelo centro de São Paulo, é possível observar haitianos, venezuelanos e migrantes de diversas origens lutando pela sobrevivência. Eles enfrentam os mesmos temas de desenraizamento, desamparo e desumanização vivenciados por aqueles que estão à margem do sistema. O drama das fronteiras, portanto, se espalha e se manifesta em diferentes nações.
Sensibilizar para Combater a Crueldade
Tarifeño vê a escrita como sua forma de contribuir, de expor essas situações cruciais. “Escrever sobre essas pessoas é o que posso fazer, e é muito, pois é mais que necessário expor essas situações”, afirmou. Ele busca, através da tristeza, atingir o humano e sensibilizar as pessoas.
“Conto suas histórias não para entristecer ninguém. Busco na tristeza o poético, não para amenizar o drama de ninguém, mas porque assim atingir o humano e sensibilizar. Não podemos viver num mundo onde reine tanta crueldade”, concluiu o autor, ressaltando a urgência de combater a crueldade e a desumanização que marcam a crise migratória global.





