Xi Jinping na Coreia do Norte: Um movimento estratégico em um tabuleiro geopolítico em transformação
O líder chinês, Xi Jinping, fará uma visita de Estado à Coreia do Norte na próxima semana, a convite de Kim Jong-un. Este encontro marca a primeira visita do líder chinês a Pyongyang em sete anos e ocorre em um momento de significativas mudanças nas relações internacionais e na dinâmica da península coreana.
A visita ocorre em um contexto de crescente proximidade entre Pyongyang e Moscou, especialmente após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Kim Jong-un tem fortalecido laços com Vladimir Putin, fornecendo munição e selando um tratado de defesa mútua, o que confere ao regime norte-coreano um novo poder de barganha.
A agência oficial chinesa Xinhua confirmou a visita, que coincide com a celebração dos 65 anos do Tratado de Amizade de 1961, o único pacto de defesa mútua que a China mantém globalmente. No entanto, a relevância deste tratado e a influência chinesa sobre a Coreia do Norte são temas de debate, especialmente diante da autonomia que Pyongyang tem demonstrado.
A complexa relação entre Pequim e Pyongyang
Embora a China seja o principal parceiro comercial da Coreia do Norte, respondendo por cerca de 95% de seu comércio total e 85% de suas exportações, a relação entre os dois países é mais complexa do que uma simples dependência econômica. Historicamente, a Coreia do Norte, sob a liderança de Kim Il-sung, soube navegar as tensões entre a China e a União Soviética para garantir apoio de ambos os lados sem se submeter a um deles.
A decisão da China de reconhecer a Coreia do Sul em 1992 marcou um ponto de virada, levando o regime norte-coreano a apostar no desenvolvimento de seu arsenal nuclear como garantia de sobrevivência, em vez de depender da boa vontade chinesa. Essa estratégia de autonomia nuclear tem sido um pilar da política externa de Pyongyang desde então.
A Rússia como novo “padrinho” e a inversão de poder
A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 alterou significativamente o cenário. Kim Jong-un encontrou em Moscou um novo aliado estratégico, fornecendo suprimentos militares essenciais para o esforço de guerra russo e, em contrapartida, recebendo apoio político e possivelmente tecnológico. O tratado de defesa mútua assinado com Putin em 2024 deu a Pyongyang um corredor militar alternativo e um escudo no Conselho de Segurança da ONU.
Essa nova dinâmica inverteu a hierarquia tradicional, colocando Pequim em uma posição onde precisa cortejar Pyongyang. A China, percebendo o risco de perder sua influência e de ver a Coreia do Norte completamente alinhada à Rússia, busca agora reestabelecer sua relevância e evitar um isolamento maior.
Xi Jinping busca conter a influência russa e evitar surpresas
A visita de Xi Jinping a Pyongyang não visa disciplinar Kim Jong-un, mas sim evitar que o vizinho se desloque totalmente para a órbita russa. A China teme a consolidação de um bloco autoritário coeso, que poderia aumentar a instabilidade regional e ameaçar seus próprios interesses.
Adicionalmente, a China observa com apreensão o ressurgimento de conversas sobre um possível diálogo direto entre Donald Trump e Kim Jong-un. O líder chinês certamente não quer ser pego de surpresa por uma reaproximação entre Washington e Pyongyang, como quase ocorreu em 2019, o que poderia minar ainda mais a influência de Pequim.
Mudança de discurso e a cautela com o “eixo autoritário”
Refletindo essas mudanças, a diplomacia chinesa tem ajustado sua linguagem, passando a falar em “conter risco” na península coreana, em vez de “desnuclearizar”. Pequim nunca se sentiu confortável com o programa nuclear de Kim, temendo que ele possa servir de pretexto para a formação de uma aliança militar entre Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, posicionada perto de suas fronteiras.
É importante ter cautela ao enxergar um “eixo autoritário” coeso entre China, Rússia e Coreia do Norte. A ausência de exercícios militares conjuntos ou cooperação trilateral relevante sugere que essa aliança é mais uma projeção do que uma realidade consolidada. A China ainda carrega o trauma da Guerra da Coreia e discorda publicamente do discurso de Kim Jong-un sobre uma “nova Guerra Fria”, enquanto Pequim e Moscou tentam não alienar o “Sul Global”.
A visita de Xi Jinping confirma que a China deixou de ser a chave-mestra da península coreana, embora ainda possua forte influência econômica. O líder chinês viaja a Pyongyang para reafirmar sua própria relevância, mas a questão que fica é se ele retornará para Pequim convencido dos limites de seu poder sobre o vizinho.





