Cantores de Forró Criticam Cachês e Espaço do Sertanejo nos Festivais Juninos do Nordeste
A temporada de São João no Nordeste, tradicionalmente celebrada com o ritmo contagiante do forró, tem sido palco de protestos e desabafos por parte de artistas renomados do gênero. Cantores como Walkyria Santos e Flávio José têm expressado publicamente sua insatisfação com a disparidade de cachês em relação a artistas sertanejos e a percepção de desvalorização da cultura nordestina.
As queixas ganharam força após declarações contundentes de Walkyria Santos em palcos de Pernambuco e Paraíba, e o cancelamento de shows pelo veterano Flávio José na Bahia. A situação levanta um debate sobre a representatividade e o tratamento dado ao forró nas grandes festas juninas da região.
A polêmica envolvendo a valorização do forró e a ascensão do sertanejo nas grades de eventos juninos do Nordeste tem gerado discussões acaloradas entre artistas, produtores e o público. Conforme informações divulgadas pelo g1, a insatisfação se manifesta tanto na remuneração quanto na atenção dada aos artistas em comparação com outros gêneros musicais.
Walkyria Santos desabafa em Caruaru e Campina Grande
A cantora Walkyria Santos iniciou suas manifestações no palco do Alto do Moura, em Caruaru (PE), onde, apesar da boa recepção do público, comparou a energia do local com a do Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, principal palco da cidade. Mais tarde, em Campina Grande (PB), a artista expressou incômodo com a aparente apatia de parte da plateia, que, segundo ela, demonstrava impaciência à espera da atração sertaneja.
“Tô achando vocês acanhados. Estão esperando Henrique & Juliano? Tem outras atrações antes deles, viu? Vocês podem interagir, cantar, dançar… não vai fazer mal a ninguém”, disse Walkyria do palco, cobrando mais engajamento do público presente.
Em suas redes sociais, a cantora explicou que a frustração também se deu por mudanças de última hora em seu horário de apresentação, o que a entristeceu. O desabafo gerou apoio de outros nomes do forró, como Robson Paiva, que apontou um “acordo velado” no mercado musical.
Robson Paiva denuncia “acordo velado” e falta de reciprocidade
O cantor potiguar Robson Paiva reforçou as críticas de Walkyria, alegando que existe uma falta de reciprocidade na circulação de artistas entre as regiões do Brasil. Segundo ele, enquanto artistas sertanejos do Sul e Sudeste marcam presença frequente nas festas nordestinas, bandas de forró tradicionais têm dificuldade em acessar grandes festivais nessas mesmas regiões.
“Quando foi que você viu Walkyria Santos tocando em Goiânia, por exemplo? Você não vai encontrar. Se você fizer um balanço sobre os festivais de música que acontecem no Sul e no Sudeste, com raras exceções, nenhum inclui bandas de forró. Mas os sertanejos de lá estão sempre aqui. Não é um acordo no papel, mas todo mundo sabe”, declarou Paiva em entrevista ao g1.
Flávio José cancela shows na Bahia em protesto
A insatisfação com a formatação das grades juninas escalou para o cancelamento de shows. O renomado sanfoneiro Flávio José, de 74 anos, anunciou o cancelamento de 15 apresentações na Bahia durante o período junino. Ele citou desvalorização financeira por parte dos organizadores locais, que, segundo ele, oferecem cachês significativamente menores em comparação aos artistas de fora do Nordeste.
“Este ano a Bahia ficará sem minha presença. Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia de que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com o forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro”, lamentou o artista em suas redes sociais.
Organizadores defendem predominância do forró nos eventos
Apesar das críticas, as prefeituras de Campina Grande (PB) e Caruaru (PE), responsáveis pelos dois maiores polos juninos do país, defendem que o forró continua sendo a base dos eventos. Campina Grande informou que mais da metade das atrações deste ano, cerca de 52% das 119 apresentações, são de forró, enquanto o sertanejo representa apenas 7%.
Caruaru, por sua vez, garantiu que 80% da programação é dedicada ao forró, englobando trios pé-de-serra, bandas, quadrilhas juninas e outros grupos culturais. A cidade celebra o forró em 27 polos de animação ao longo de 78 dias de festa.
Em contrapartida, o cantor Henrique, da dupla sertaneja com Juliano, minimizou a polêmica em declarações ao g1 Paraíba. “Acho que a gente tem que exaltar mais o lado positivo, não dar tanta visibilidade para o negativo da coisa, sabe? São 60 mil pessoas que estão aí, então a gente tem que dar o nosso melhor para essa galera que saiu de casa”, afirmou o sertanejo antes de subir ao palco.





