El Niño agrava crise no agronegócio brasileiro, com risco de quebra de safra e alta da inflação
O mundo se prepara para um novo episódio de El Niño, um fenômeno climático que promete redesenhar o cenário agrícola brasileiro nos próximos meses. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação do evento, indicando uma probabilidade de 63% de que as temperaturas do mar no Pacífico superem 2,0°C. Isso configura um “El Niño muito forte”, com potencial para figurar entre os maiores já registrados desde 1950.
Este evento climático chega em um momento de grande vulnerabilidade para o agronegócio nacional. O setor já lida com endividamento crescente, juros elevados, aumento no custo de insumos e queda nos preços das commodities. Especialistas alertam que o El Niño pode atuar como um catalisador de riscos, agravando a fragilidade financeira do campo, que opera com margens de lucro já apertadas.
As consequências, no entanto, não se restringem ao campo. A conta de luz, o preço da carne e das hortaliças que chegam à mesa dos brasileiros devem sofrer aumentos nos próximos meses. As projeções de inflação, segundo o boletim Focus do Banco Central, estão em alta há 13 semanas, sinalizando um cenário desafiador para a economia do país. Conforme divulgado pelo Banco Central, a projeção de inflação para 2026 é de 5,11%, superando a meta em mais de 0,6 ponto percentual.
O que é o El Niño e como ele afeta o Brasil
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa elevação de temperatura altera a circulação atmosférica global, impactando os padrões de chuva e temperatura em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil. A expectativa é que o evento atual seja mais severo que o de 1997/98, um dos mais intensos em 150 anos.
No Brasil, os efeitos do El Niño se manifestam de forma assimétrica. A região Sul tende a enfrentar chuvas torrenciais e inundações, dificultando o manejo agrícola, favorecendo doenças fúngicas e prejudicando a qualidade dos grãos. Em contrapartida, o Norte e o Nordeste do país sofrem com secas severas, enquanto o Centro-Oeste, principal polo produtor, lida com irregularidade hídrica.
Para culturas como soja, milho, trigo e algodão, o risco de quebra de safra é elevado. Em algumas localidades, o café e a cana-de-açúcar também estão expostos. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que o produtor sente o impacto antes mesmo do plantio, necessitando de mais sacas para adquirir os mesmos insumos e tecnologias.
Vulnerabilidade financeira do agro e risco de inadimplência
O agronegócio brasileiro enfrenta uma conjuntura delicada. Custos de produção elevados, aliados à queda na rentabilidade das commodities, que tiveram uma queda real média de 10,9% em 12 meses até maio, segundo o Banco Central, levaram a um recorde de endividamento. Insumos essenciais como fertilizantes, custos de transporte e tarifas de energia elétrica têm pressionado fortemente as operações no campo.
A taxa Selic elevada também encarece o crédito para os produtores rurais. Com projeções de menos cortes nos juros, a situação financeira crítica para muitos produtores se prolonga. Dados da Serasa Experian revelam um aumento de 56,4% nas solicitações de recuperação judicial no agronegócio em 2025, totalizando 1.990 pedidos, com destaque para produtores pessoa física.
A inadimplência no campo escalou para 8,2% no último trimestre de 2025, um aumento de um ponto percentual em relação ao ano anterior. Diante desse cenário, instituições financeiras têm adotado análises mais robustas e exigido maiores garantias, reduzindo o apetite ao risco.
Impactos econômicos e geopolíticos além do campo
Os efeitos do El Niño no setor agrícola têm reflexos diretos no custo de vida nas cidades e na condução da política econômica. O impacto mais imediato se traduz no aumento dos preços dos alimentos. O mercado financeiro estima que o fator climático possa adicionar até 0,8 ponto percentual ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026.
O setor elétrico também está em alerta. A seca prevista para o Norte e Nordeste pode reduzir o nível dos reservatórios das hidrelétricas, elevando a dependência de usinas termelétricas, cujos custos operacionais são significativamente maiores. Esse choque de custos em alimentos e energia cria um cenário onde os riscos de alta da inflação superam os de queda, o que pode levar o Banco Central a manter a taxa de juros em patamares elevados por mais tempo.
Além dos desafios climáticos, o cenário geopolítico adiciona outra camada de incerteza. O desabastecimento de fertilizantes, influenciado pelo fechamento do Estreito de Ormuz e conflitos regionais, representa uma ameaça concreta para os próximos ciclos de plantio. A CNA aponta que, embora o volume de importações de fertilizantes tenha caído, o valor gasto aumentou 16% no comparativo entre os primeiros quadrimestres de 2025 e 2026, expondo o produtor ao câmbio, logística internacional e à geopolítica.





