Oposição e empresários defendem flexibilização da jornada de trabalho contra proposta governista de fim da escala 6×1
Uma disputa acirrada sobre as regras da jornada de trabalho no Brasil está em curso no Senado Federal. Duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC) tramitam em paralelo, gerando intensos debates entre o setor produtivo e o governo. De um lado, a chamada “PEC da jornada flexível”, de autoria da oposição, ganha força com o apoio de um expressivo grupo de entidades empresariais. Do outro, a PEC que prevê o fim da escala 6×1, defendida pelo governo federal, busca estabelecer uma nova configuração para a semana de trabalho.
A polarização se manifesta na forma como cada proposta é vista: a flexibilização é apresentada como uma escolha, enquanto a extinção da escala 6×1 é percebida por alguns como uma imposição. A PEC da jornada flexível, proposta pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), tem recebido forte respaldo de associações empresariais e comerciais, que veem na proposta uma forma de adaptar as leis trabalhistas à diversidade do mercado brasileiro.
Em contrapartida, a PEC do fim da escala 6×1, encabeçada pelo deputado petista Reginaldo Lopes (PT-MG), é uma das bandeiras do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A proposta visa reduzir a jornada semanal e garantir dois dias de descanso, o que, segundo o governo, trará benefícios aos trabalhadores. Contudo, estudos e o setor empresarial alertam para possíveis impactos negativos, como aumento de custos e redução de vagas. Conforme apuração da Folha de S. Paulo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), estuda a possibilidade de incorporar partes da PEC da oposição à proposta governista, buscando um meio-termo.
PEC da Jornada Flexível: Flexibilidade e Opções para o Mercado
A proposta do senador Rogério Marinho busca alterar a Constituição para permitir a negociação individual ou coletiva de jornadas de trabalho flexíveis, inclusive por hora trabalhada. Segundo a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), que representa cerca de 90% do PIB e mais de 40 milhões de empregos, a PEC do trabalho flexível mantém o regime tradicional da CLT como base, mas oferece a opção de um regime baseado nas horas efetivamente trabalhadas. Isso significa que o valor da hora, os benefícios como FGTS e 13º salário, e as férias seriam calculados proporcionalmente à carga horária cumprida, respeitando a jornada máxima de 44 horas semanais.
“A PEC do trabalho flexível mantém o regime tradicional da CLT como porto seguro e oferece, a quem quiser, a opção de um regime baseado nas horas efetivamente trabalhadas”, afirmou a CACB. A entidade destaca que essa flexibilidade é crucial para setores com alta demanda em determinados períodos, como comércio, turismo e serviços, que muitas vezes operam com escalas variadas para atender picos de movimento, fins de semana e feriados. A flexibilização, segundo a CACB, não eleva o custo do trabalho por decreto e amplia possibilidades sem encarecer a folha de pagamento, o que seria especialmente benéfico para pequenos negócios.
PEC do Fim da Escala 6×1: Redução de Jornada e Preocupações Econômicas
A PEC do fim da escala 6×1, aprovada na Câmara dos Deputados, propõe a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, com a garantia de dois dias consecutivos de descanso. A proposta prevê que, 60 dias após sua promulgação, a jornada caia para 42 horas semanais, atingindo o teto de 40 horas em 12 meses. Os dois dias de repouso semanal também seriam implementados nesse mesmo prazo. O governo defende que essa medida não acarretará redução salarial para os trabalhadores.
No entanto, diversos estudos apontam para impactos negativos caso a PEC seja promulgada nos moldes propostos. As estimativas sugerem uma possível redução no número de vagas de emprego, aumento da inflação e da informalidade, e até mesmo uma retração do Produto Interno Bruto (PIB). A CACB ressalta que o risco econômico reside no encarecimento compulsório do trabalho. Para os empresários, especialmente os de pequeno porte, a única alternativa seria repassar esse aumento aos preços, impactando diretamente o consumidor, que, em muitos casos, é o próprio trabalhador.
Impactos Setoriais e o Debate sobre Negociação
A CACB argumenta que a PEC do trabalho flexível traria benefícios para setores intensivos em mão de obra, como comércio, serviços, turismo e hotelaria. Esses setores, muitas vezes marcados por sazonalidade e funcionamento estendido, poderiam se beneficiar da capacidade de ajustar a jornada às demandas do mercado, permitindo que os trabalhadores ganhem mais em períodos de alta demanda. Em contraste, a PEC do fim da escala 6×1 afetaria negativamente esses mesmos setores, especialmente microempreendedores individuais (MEIs) e pequenas empresas, que possuem margens de lucro mais apertadas.
Quanto à capacidade de negociação dos trabalhadores, a CACB defende que a PEC da jornada flexível fortalece essa posição. A entidade explica que a proposta não obriga a adesão ao modelo flexível, mantendo o regime comum da CLT como padrão. A adesão ao modelo flexível só ocorreria se fosse vantajosa para o trabalhador, que negociaria a partir de uma posição protegida, e não por necessidade. “Ninguém é forçado a abrir mão da CLT, o que muda completamente a relação de força: o trabalhador negocia a partir de uma posição protegida, não da necessidade”, afirma a CACB.
O Futuro da Jornada de Trabalho no Brasil
O debate sobre as jornadas de trabalho no Brasil reflete um conflito entre a busca por maior flexibilidade, defendida pela oposição e pelo setor empresarial, e a intenção do governo de padronizar e reduzir a carga horária, visando, segundo ele, a proteção do trabalhador. A possibilidade de uma junção das propostas no Senado abre caminho para um possível consenso, mas as divergências fundamentais sobre a autonomia da negociação individual e os impactos econômicos das mudanças permanecem como pontos cruciais na discussão.
O senador Rogério Marinho criticou a PEC do fim da escala 6×1, afirmando que o governo agiu de forma “irresponsável e leviana” ao não apresentar estudos de impacto. Segundo ele, a proposta governista impede o acordo individual para a modificação da jornada, algo que, para Marinho, sempre existiu no Brasil. A CACB também reforça a necessidade de segurança jurídica para que as negociações flexíveis não se tornem passivos trabalhistas, destacando o interesse do empresariado em arranjos que retenham bons trabalhadores.





