A Galleria Vittorio Emanuele II em Milão, um ícone arquitetônico do século 19, abriga uma tradição curiosa: girar o calcanhar sobre o mosaico do touro. Este ritual, associado à boa sorte e ao desejo de retornar à cidade, motivou a recente restauração da obra desgastada pelo tempo e pelo costume.
A Galleria Vittorio Emanuele II, um dos cartões postais de Milão, está situada estrategicamente no coração da cidade, a poucos passos da majestosa Catedral (Duomo). Sua arquitetura imponente, que remonta ao século 19, não é o único atrativo. O local é palco de uma tradição popular e peculiar: o ritual de girar o calcanhar sobre os testículos do touro representado em um mosaico no piso.
Embora o costume possa parecer inusitado à primeira vista, ele é praticado há gerações por visitantes de todo o mundo. A crença popular dita que friccionar o calcanhar sobre essa parte específica do mosaico e girar três vezes traz boa sorte e garante o retorno à capital da moda. A intensa popularidade da tradição, no entanto, levou ao desgaste do mosaico, exigindo uma cuidadosa restauração.
Recentemente, a restauração gerou debates, com alguns expressando descontentamento com a nova versão, apontando que os testículos do touro parecem menores, o que poderia, hipoteticamente, dificultar a execução do ritual. A intervenção, contudo, visa preservar a história e a arte, adaptando-as à realidade de sua popularidade. Conheça os detalhes dessa fascinante tradição e o minucioso processo de restauração.
A origem e os significados do ritual do touro
O mosaico, localizado no centro octogonal da galeria, exibe um touro rampante, símbolo da cidade de Turim. A galeria, cuja construção iniciou-se na década de 1860, foi concebida enquanto Turim ainda era a capital do Reino da Itália. A escolha de representar o touro pode estar ligada a essa conexão histórica.
A interpretação mais difundida sobre o ritual associa o ato de girar sobre o mosaico à obtenção de boa sorte e prosperidade. Outra versão popular sugere que o gesto assegura ao visitante a promessa de um futuro retorno a Milão, um costume que ecoa práticas como o lançamento de moedas na Fontana di Trevi, em Roma.
Existe ainda uma interpretação que remonta à rivalidade histórica entre Milão e Turim. Segundo essa visão, o ato de os milaneses pisotearem a parte mais íntima do touro seria uma forma de provocação ou insulto direcionado a Turim, especialmente em períodos de intensa competição política e cultural entre as duas metrópoles do norte italiano.
O minucioso processo de restauração do mosaico
Originalmente, o mosaico foi confeccionado com pequenos ladrilhos de mármore rosa, seguindo as técnicas e o estilo artístico do século 19. Contudo, a popularidade da tradição resultou em um desgaste significativo na área dos testículos do touro, exigindo manutenções periódicas para preservar a integridade da obra.
A intervenção mais recente, concluída em maio de 2026, foi liderada pelo especialista em restauração Gianluca Galli. O movimento constante dos calcanhares dos turistas havia criado uma depressão de aproximadamente 2,5 centímetros de profundidade, reduzindo os ladrilhos de mármore a pó. Conforme informação divulgada pelo especialista, a intervenção foi necessária para evitar a completa destruição da peça.
Durante o processo de restauração, Galli trabalhou manualmente, cortando novas peças de pedra para substituir as danificadas, sempre respeitando os desenhos originais do período oitocentista. Para aumentar a durabilidade da obra frente à intensa circulação, a argamassa tradicional de cal e areia foi substituída por resinas epóxi, um material reconhecidamente mais resistente à pressão.
Este trabalho minucioso, que exigiu cerca de quatro dias para ser concluído, teve um custo estimado de cinco mil euros. A restauração garante que a tradição milanesa continue a encantar visitantes e a prometer sorte e retornos à cidade por muitos anos.





