Professor de História Alemã Alerta: “Sistema Democrático Não Funciona Mais” Diante da Ascensão da AfD
A Alemanha se encontra em um cenário político sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A ascensão contínua da Alternativa para a Alemanha (AfD), especialmente com sua recente vitória expressiva na Saxônia-Anhalt, representa um “território desconhecido” para o país. O sistema político outrora robusto, projetado para impedir o ressurgimento de ideologias extremistas, parece ter perdido sua eficácia.
O professor associado de História Alemã Moderna da Universidade de Cambridge, Marcus B öick, natural da região afetada, descreve a situação como “desesperadora”, mas não surpreendente. Ele aponta para um isolamento ineficaz dos outros partidos em relação à AfD e um argumento enfraquecido em defesa da democracia.
Em entrevista exclusiva, B öick detalha como a estratégia da AfD, focada em criar um sentimento de pertencimento e suprir a ausência de representatividade dos partidos tradicionais, tem sido fundamental para seu sucesso eleitoral. Conforme informação divulgada pela Folha, a AfD obteve quase 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, um resultado que superou as expectativas e colocou o partido em uma posição de liderança inédita.
O “Brandmauer” Alemão em Xeque e a Perda de Argumentos Democráticos
O chamado “Brandmauer”, ou “muro de fogo”, um mecanismo de isolamento político contra a extrema direita, tem sido um pilar da política alemã. No entanto, B öick observa que este “cordão sanitário” parece estar perdendo força. “A defesa do sistema democrático não é mais argumento”, afirma o historiador, destacando que a AfD pode simplesmente contrapor que o voto popular em si é a expressão máxima da democracia.
A estratégia da AfD de se apresentar como uma alternativa viável, com candidatos carismáticos e que “cumprem promessas”, contrasta com a percepção de decadência dos partidos tradicionais. A crise econômica europeia, os desafios geopolíticos com a Rússia e a China, e a imprevisibilidade dos EUA criam um cenário de instabilidade que os partidos estabelecidos têm dificuldade em gerenciar.
Nostalgia e Sentimento de Pertencimento: As Armas da AfD no Leste Alemão
A AfD tem explorado habilmente a nostalgia e o sentimento de pertencimento, especialmente nas regiões rurais do leste da Alemanha. B öick, que nasceu em Aschersleben, Saxônia-Anhalt, descreve o declínio econômico e social dessas áreas nas últimas décadas, com o fechamento de cinemas, escolas e hospitais. Nesse vácuo, a AfD surge com eventos comunitários e uma mensagem de “retorno a um passado glorioso”, seja ele da Alemanha Oriental, do Império ou de uma “grande nação orgulhosa”.
O historiador explica que, embora haja elementos neonazistas e pós-nazistas dentro da AfD, o apelo da sigla à sociedade em geral transcende a ideologia. A falta de um senso de comunidade e a forte competição individual deixam as pessoas “perdidas e sozinhas”, e a AfD oferece uma sensação de “estar aqui e começar a mudar as coisas”. Essa capacidade de criar uma “colagem digital de nostalgias” tem sido crucial para seu sucesso.
A Nova Face da Extrema Direita: “Genro dos Sonhos” e a Perda de Identidade
Um dos fatores que B öick aponta para o sucesso da AfD é a escolha de candidatos mais carismáticos e articulados, que se encaixam no perfil alemão de “Schwiegermutters Liebling”, o “genro dos sonhos”. Essa nova imagem, aliada a uma comunicação eficaz nas redes sociais e a eventos que remetem a um passado idealizado, cria uma conexão emocional com eleitores que se sentem desamparados e esquecidos.
A ironia de um partido de direita celebrar elementos de um regime comunista, como visto em comícios que remetem à Alemanha Oriental, é parte da “nova forma de fascismo” ou “populismo digital de direita” que B öick hesita em rotular completamente. No entanto, ele ressalta que a lógica racional falha em explicar esse fenômeno, que se baseia mais em sentimento e na busca por uma identidade coletiva perdida.
O Futuro Incerto da Alemanha e a Impopularidade dos Líderes Tradicionais
Com a AfD já sendo o partido mais forte em âmbito federal, a possibilidade de formar um governo nas próximas eleições federais em 2029 se torna cada vez mais real. A impopularidade de líderes como Friedrich Merz, da CDU, que cumpriu poucas promessas e aumentou impostos, agrava a situação. A perda iminente da CDU em eleições estaduais recentes, como em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e em Berlim, pode indicar uma mudança significativa dentro do partido.
A AfD tem se infiltrado em pequenos vilarejos, promovendo eventos comunitários e torneios de futebol, fazendo com que as pessoas sintam que “alguém está se importando com elas”. Essa conexão direta e a oferta de um senso de pertencimento, em contraste com a fragilidade dos partidos tradicionais e até mesmo das igrejas no leste, solidificam a posição da extrema direita em um país que caminha para um futuro incerto e desconhecido.
Raio-x: Marcus B öick
Marcus B öick é professor de História Moderna da Alemanha na Universidade de Cambridge. Especialista na história da Alemanha Oriental e na transição do socialismo para o capitalismo nos anos 1990, B öick nasceu na região da Saxônia-Anhalt e teve passagens por universidades renomadas como Harvard e Toronto.





