Desastre no Nepal: Aquecimento Global Piora Condições Naturais Levando ao Colapso de Montanha
Um recente colapso de montanha na fronteira entre Nepal e China, que resultou em mais de 1.300 mortes e milhares de desaparecidos, foi uma crise complexa de eventos climáticos e geológicos. A primeira análise científica detalhada sobre o desastre, divulgada pelo World Weather Attribution (WWA), aponta o aquecimento global como um fator agravante significativo para a maioria desses eventos.
A falha ocorreu na montanha Langtang Lirung, com o desprendimento de parte de uma geleira e rochas. O gelo derreteu rapidamente, formando uma inundação que varreu comunidades locais. Especialistas ressaltam que não foi um evento isolado, mas sim a conjugação de processos atuando ao longo de décadas.
O estudo, liderado por cientistas do Imperial College de Londres, buscou quantificar a responsabilidade das mudanças climáticas. Conforme aponta Walter Immerzeel, professor da Universidade de Utrecht e um dos autores do estudo, a atribuição climática direta é desafiadora, mas o papel do aquecimento é inegável. A análise foi publicada nesta quinta-feira (17).
Degelo Acelerado e Permafrost Descongelado: Os Vilões do Aquecimento Global
O aquecimento atmosférico, principalmente causado pela queima de combustíveis fósseis, desempenhou um papel preponderante. Temperaturas mais altas causaram o **derretimento da geleira** e elevaram a linha de congelamento da montanha em cerca de 100 metros por década. O recuo da geleira foi estimado em 300 metros entre 2010 e 2026.
Além disso, o **degelo do permafrost**, o solo permanentemente congelado, dentro das fraturas rochosas, tornou as encostas instáveis. Immerzeel explica que o permafrost é particularmente sensível ao aquecimento, reduzindo a resistência da rocha e permitindo a penetração de mais água na encosta.
Temperaturas Recordes e o Impacto de Terremotos Anteriores
Os meses de julho e agosto registraram temperaturas próximas a 5°C na região, um recorde em 55 anos. O WWA estima que a região experimentou um aquecimento de cerca de 1,5°C em relação ao período pré-industrial, chegando a 2°C de aquecimento no ano naquela cadeia montanhosa específica.
Um **terremoto de grande magnitude ocorrido em 2015** na região também pode ter contribuído para a instabilidade da encosta, tornando-a mais propensa ao desmoronamento. A combinação desses fatores criou um cenário de extrema vulnerabilidade.
Limites da Adaptação e Pedido de Ajuda Internacional
A magnitude da tragédia evidenciou os limites da adaptação às mudanças climáticas em regiões de alta montanha. O estudo aponta que, em um contexto de áreas habitáveis limitadas e dependência econômica dos rios, reduzir a exposição ao risco é social, econômica e politicamente desafiador.
O governo nepalês solicitou e obteve aprovação da ONU para acessar US$ 20 milhões (R$ 98 milhões) do Fundo de Resposta a Perdas e Danos. Este recurso, contudo, representa uma fração do necessário para a recuperação. O primeiro-ministro Balendra Shah planeja discutir o assunto na Assembleia Geral da ONU.
O Papel Crucial da Mudança Climática no Desastre
O colapso foi resultado de uma encosta geologicamente vulnerável, desestabilizada pelo recuo da geleira, pelo degelo do permafrost, pelo excesso de água de degelo e pelo calor excepcional. Conforme resume Immerzeel, todos esses pontos, agravados pelo aquecimento global, levaram à tragédia.
A análise do WWA reforça a urgência de ações globais para mitigar as mudanças climáticas e suas consequências devastadoras em ecossistemas vulneráveis e comunidades em todo o mundo. O caso do Nepal serve como um alerta severo sobre os impactos crescentes do aquecimento do planeta.





