A beleza da aurora boreal se transformou em um pesadelo logístico e econômico para Tromso, na Noruega, cidade que atrai milhares de turistas em busca do espetáculo de luzes.
O que deveria ser uma experiência mágica para admirar a aurora boreal em Tromso, Noruega, tem se transformado em um cenário de caos e frustração. A cidade, conhecida por sua localização privilegiada para a observação das luzes do norte, enfrenta uma onda de operadores turísticos ilegais que causam transtornos e prejuízos.
Esses guias não regulamentados, em sua maioria vindos da China, operam sem licença, exploram a beleza natural da região e deixam um rastro de problemas para a comunidade local e para os próprios turistas, muitos dos quais acabam sendo enganados. A situação tem levado as autoridades a intensificar a fiscalização.
A polícia norueguesa tem realizado operações para coibir a atividade ilegal, apreendendo veículos e deportando guias estrangeiros. A reportagem do The New York Times acompanhou uma dessas ações, que resultou na prisão de um motorista chinês que atuava como guia sem autorização. Conforme informação divulgada pelo The New York Times, o motorista foi pego em flagrante no aeroporto de Tromso, transportando dois passageiros, e admitiu ter vendido um pacote turístico por mais de US$ 4.500.
O Caos no Paraíso Polar
Tromso, uma cidade universitária com cerca de 80 mil habitantes, vê sua população ser triplicada na alta temporada de aurora boreal, que vai de setembro a abril. O boom turístico, impulsionado pelas redes sociais, sobrecarrega a infraestrutura da cidade. Em fevereiro, mais de 137 mil visitantes passaram pelo aeroporto local, segundo a empresa estatal Avinor.
A primeira responsável por sustentabilidade da cidade, Helga Bardsdatter Kristiansen, aponta que o município não vê aumento na arrecadação, apenas em despesas, devido à pressão sobre ruas e serviços públicos. Estima-se que quase metade das operadoras de turismo em Tromso atue de forma irregular.
A unidade especial A-Crime foi criada para combater essa indústria paralela. Agentes saem às ruas ao anoitecer, revistando veículos e buscando guias ilegais que muitas vezes operam em grupos de mensagens, trocando dicas para escapar da fiscalização.
Turistas Enganados e Prejuízos
A facilidade para iniciar a operação ilegal, que exige basicamente um carro e o conhecimento dos locais de observação, atrai muitos aventureiros. No entanto, a experiência para os turistas pode ser desastrosa.
Relatos em redes sociais chinesas, como o Red Note, mostram centenas de reclamações sobre golpes. Uma turista de Chengdu relatou ter passado o passeio dentro de uma delegacia após seu guia ilegal ser preso. O motorista, segundo ela, pediu que mentisse para a polícia, alegando que eram apenas amigos.
Outra turista, Tingting Wang, pagou US$ 1.400 para ver a aurora boreal com seus pais, mas o céu estava encoberto em uma noite e o guia não apareceu na outra. Ela retornou para Xangai sem ter visto o espetáculo e mentiu para os pais sobre o reembolso, descrevendo o turismo na cidade como “muito caótico”.
Impacto nos Moradores e Operadores Legais
A presença massiva de turistas e a atuação de operadores ilegais incomodam os moradores e prejudicam os operadores licenciados. Gunnar Hildonen, um veterano na caça à aurora boreal, cobra cerca de US$ 250 por assento em seu micro-ônibus, enquanto os motoristas não registrados aceitam uma fração desse valor.
Ele lamenta que a temporada, que deveria ser uma celebração de seu 20º ano guiando turistas, tenha sido prejudicada pela desorganização e pela concorrência desleal. A polícia intensificou as apreensões, registrando cerca de 10 veículos por mês e deportando guias não noruegueses.
A indústria da aurora boreal, que gera muito dinheiro, tem seus lados honestos e desonestos, como aponta o superintendente Lars Holtedahl. A busca por lucros fáceis tem transformado um dos mais belos fenômenos naturais em um problema para as autoridades e para a experiência de muitos visitantes.




