Brasileiros Buscam ‘Sonho de Direita’ no Paraguai: Fuga de Impostos e Críticas ao Brasil Levam a Filas Gigantes
A cena em Ciudad del Este, no Paraguai, é de um êxodo silencioso, mas crescente. Brasileiros de diversas regiões do país formam filas quilométricas, enfrentando calor, chuva e mosquitos, em busca de uma nova vida. O objetivo é obter residência no Paraguai, país que muitos veem como um refúgio contra a burocracia, a alta carga tributária e a instabilidade econômica percebida no Brasil.
A motivação principal, segundo os próprios imigrantes, reside na busca por um “sonho de direita”, que se traduz em um ambiente de negócios mais favorável, com impostos menores e leis trabalhistas menos onerosas. Essa onda migratória tem chamado a atenção das autoridades paraguaias, que organizam mutirões para agilizar a emissão de documentos.
Conforme reportagem do portal UOL, o governo paraguaio tem promovido eventos itinerantes para atender à demanda de brasileiros que desejam se mudar. Em um desses mutirões em março, centenas de pessoas acamparam por dias sob o sol forte e no chão de terra vermelha para garantir atendimento. Delly Fragola, 55 anos, de Anápolis (GO), exemplifica o sentimento: “Viemos conhecer tudo isso que o Paraguai tem para oferecer aos brasileiros”. Ela relata que o Brasil “não tem mais oportunidades” para seu salão de cabeleireiro, citando a falta de mão de obra e a burocracia como entraves.
A Atratividade do Modelo Paraguaio
O Paraguai tem se destacado por um modelo econômico que prioriza o baixo custo de produção para empresas e o baixo custo de vida para os cidadãos. O economista Alexandre da Costa explica que essa estratégia tem impulsionado o crescimento do país, que tem se mantido em torno de 4% nos últimos três anos, acima da média latino-americana.
Um dos atrativos mais mencionados é a energia elétrica, significativamente mais barata no Paraguai graças às hidrelétricas de Itaipu e Yacyretá. Em média, a energia no Brasil é 2,8 vezes mais cara que no país vizinho, segundo a consultoria SEG.
Para os empresários, a baixa carga tributária e o custo da mão de obra são fatores decisivos. As leis trabalhistas paraguaias são consideravelmente mais flexíveis que as brasileiras, não existindo FGTS e com férias que começam em 12 dias úteis anuais, podendo chegar a 30. O seguro desemprego, comum no Brasil, também não existe no Paraguai.
Desafios e Sustentabilidade do Modelo
Apesar das vantagens, o modelo paraguaio apresenta desafios. A baixa arrecadação de impostos limita o investimento público em infraestrutura, saúde e educação. O sistema público de saúde, por exemplo, é fragmentado e muitas vezes exige que os pacientes paguem pelos insumos, mesmo com gratuidade prevista em lei.
A extrema pobreza ainda afeta 4,1% da população paraguaia, um índice ligeiramente superior aos 3,5% do Brasil, segundo dados oficiais. A taxa de informalidade no mercado de trabalho também é alta, atingindo 62,5%, bem acima dos 37,5% brasileiros.
O economista Alexandre da Costa alerta para a necessidade de cautela ao se falar em um “milagre econômico” paraguaio, especialmente ao atrair pessoas em busca de emprego. Ele ressalta que muitos brasileiros que imigram acabam buscando atendimento médico no Brasil, como no SUS de Foz do Iguaçu, quando necessitam.
O Sentimento de Desilusão e a Busca por um Futuro Melhor
Muitos brasileiros que buscam residência no Paraguai expressam um profundo sentimento de desilusão com a situação econômica e política do Brasil. Joraci de Lima, 61 anos, empresário do ramo de metalurgia, explica que, apesar de seu negócio no Brasil ser saudável, a carga tributária e a possibilidade de reeleição do presidente Lula o motivaram a buscar uma filial no Paraguai.
“Ninguém quer trocar sua pátria. Mas a condição dos impostos no Brasil não nos ajuda em nada”, lamenta. Ele descreve o sentimento de muitos na fila como “perda, dor, angústia e desilusão”. A maioria sequer considera retornar ao Brasil, mesmo que haja uma mudança política em 2027, argumentando que o sistema brasileiro estaria “viciado”.
Novos Horizontes e a Realidade da Vida Paraguaia
Miriam Costa, 37 anos, e Guilherme Lopes, 34, são um exemplo de brasileiros que encontraram no Paraguai um novo lar. Eles se mudaram há três meses de Serra, no Espírito Santo, para Ciudad del Este, onde vendem romances eróticos escritos por Miriam, sob o pseudônimo “Alicia Bianchi”. Eles se beneficiam de uma regra paraguaia que aplica tributação mínima a rendas recebidas do exterior.
Libertários e anarcocapitalistas, o casal valoriza o Estado menor e com menos intervenção na economia e na vida pessoal. “A gente prefere um Estado menor, com menos intervenção na economia, menos intervenção na nossa vida pessoal”, defende Miriam. Eles citam que um plano de saúde de ponta para toda a família custa o equivalente a R$ 800 e que a educação para o filho autista é mais acessível.
Apesar de reconhecerem o Brasil como um país mais desenvolvido, não pretendem voltar. “Eu não estou vendo com bons olhos para onde o país está indo”, afirma Miriam, citando a radicalização política em ambos os espectros no Brasil. Eles admiram a aparente união em prol do país que percebem no Paraguai.
Apesar do aumento de pedidos de residência, dados recentes do Paraguai indicam uma queda na proporção de pedidos de residência permanente por parte dos brasileiros. Em 2025, apenas 19% dos 23,5 mil pedidos de residência brasileiros eram permanentes, um contraste com os 68% registrados em 2020. Isso pode sugerir que muitos imigrantes não se estabelecem definitivamente no país, aproveitando a facilidade de retorno ao Brasil.
Leonardo Ribeiro, 22 anos, vendedor de suco de laranja, trocou Marília (SP) por Ciudad del Este há três meses, mas já planeja voltar. “Eu acho que o pessoal deu uma magia a mais pela internet, pelos vídeos no Paraguai. Mas não achei muita diferença do Brasil, não”, relata. Ele veio pela questão econômica, mas “particularmente, prefiro o meu Brasil”.
Roberta Viegas, por outro lado, está satisfeita com sua nova vida, mas alerta sobre a idealização do Paraguai. “Tem muita gente vendendo que o Paraguai é ‘mil maravilhas’, por interesse próprio”, adverte. Ela aconselha que quem pensa em se mudar avalie se “a pessoa se identifica” com o país, que, apesar de ser seu novo lar, não apaga a saudade das praias do Rio de Janeiro. “Obviamente que, se eu vejo que o meu país, está segundo aquilo que eu acho bom para mim, eu volto. Eu amo o Brasil. Mas, hoje, eu me sinto melhor aqui.”, conclui.





