Cessar-fogo em Gaza completa 6 meses, mas guerra persiste e deixa palestinos em estado de calamidade
O som contínuo de drones sobre a Faixa de Gaza tornou-se um lembrete sombrio para os palestinos. Seis meses após a entrada em vigor de um cessar-fogo, a violência não cessou, mantendo a população em um estado de guerra permanente e precariedade extrema.
Desde 10 de outubro de 2025, pelo menos 715 palestinos morreram em bombardeios ou por disparos, segundo dados do Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha). O número total de mortos se aproxima de 72 mil, com corpos ainda sendo encontrados sob os escombros.
A situação humanitária é catastrófica, com mais de 80% das edificações danificadas e materiais de reconstrução praticamente inexistentes. Conforme informações divulgadas pelo Ocha, a trégua, que entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, não conseguiu pausar o conflito de fato, mantendo a população civil em condições extremas.
Violência contínua e reconstrução improvisada
As Forças Armadas de Israel afirmam realizar operações pontuais devido a violações constantes da trégua por combatentes do Hamas, que ainda opera em parte do território. Israel ocupa militarmente a outra metade de Gaza. A destruição é vasta, com mais de 123 mil construções completamente destruídas e cerca de 320 mil unidades habitacionais danificadas, segundo análise do Centro de Satélite das Nações Unidas.
Moradores, como Mohammed al-Jadba da Cidade de Gaza, relatam o uso de materiais inusitados, como terra e cabelos cortados, para improvisar argamassa e erguer paredes precárias, buscando alguma proteção contra disparos perdidos. A ONU estima que 1,7 milhão de palestinos vivem em 1.600 locais, sendo 1,3 milhão em abrigos improvisados, muitos em tendas, expostos às intempéries e com acesso limitado a necessidades básicas.
Saúde em colapso e acesso restrito
Os serviços de saúde em Gaza sofrem um colapso sem precedentes. Dezenas de centros clínicos e hospitalares estão inutilizáveis, e apenas 20 dos 283 locais de atendimento funcionam com capacidade total. O diretor do hospital Al-Shifa, Hassan Al-Shaer, descreve a situação como catastrófica, com escassez de medicamentos e dificuldades no tratamento de diversas especialidades, incluindo câncer.
A continuidade dessa precariedade é um reflexo direto de um cessar-fogo que avança a passos lentos. A entrada de materiais básicos e o acesso externo são severamente limitados, com apenas dois postos de controle parcialmente abertos em Rafah e Kerem Shalom, ambos controlados por Israel.
Negociações estagnadas e futuro incerto
A trégua, anunciada após os ataques do Hamas em Israel em outubro de 2023, previa a troca de reféns por prisioneiros palestinos. Embora os reféns vivos tenham sido libertados na primeira fase, as etapas seguintes, que incluiriam o desarmamento do Hamas e a transferência de governança a um grupo tecnocrático, não foram implementadas.
O Hamas exige garantias de Israel para prosseguir com o desarmamento e denuncia violações da trégua, enquanto Israel alega reagir a ações do grupo. A pressão internacional por um desarmamento do Hamas existe, mas sem um prazo definitivo, e com outros focos de tensão regional, como a guerra no Irã e o conflito no sul do Líbano, a urgência para avançar nas negociações em Gaza parece diminuir.
Enquanto isso, a população civil palestina continua a conviver com a penúria, a violência intermitente e o som constante dos drones, um som que simboliza a guerra que insiste em não ter fim.





