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Chico Buarque e Georgette Fadel: A Força Poética de ‘Gota d’água’ Ressurge com Intensidade em São Paulo

A Poesia de Chico Buarque e a Dramaturgia Feminina em Destaque na Nova Montagem de ‘Gota d’água’

A cena teatral paulistana celebra a força da palavra de Chico Buarque com a remontagem de ‘Gota d’água – No tempo’. O espetáculo, que fica em cartaz até 3 de maio no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, é protagonizado e dirigido por Georgette Fadel, com codireção e atuação de Cristiano Tomiossi. A obra se destaca pela precisão do texto do renomado compositor e dramaturgo, que sustenta uma encenação arrebatadora.

A montagem mergulha na essência da peça original, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes, inspirada na tragédia grega “Medéia”. A adaptação transporta a ação para uma comunidade carioca dos anos 1970, explorando temas como a opressão do sistema capitalista e a luta feminina contra o silenciamento.

A força das composições de Chico Buarque permeia toda a experiência cênica, com citações instrumentais e canções que amplificam o desespero e a agonia da protagonista, Joana, interpretada com maestria por Georgette Fadel. Conforme divulgado, o espetáculo é um convite à reflexão sobre a persistência das estruturas opressoras em nossa sociedade.

A Sutil, Mas Poderosa, Presença de Chico Buarque na Cena

Ao longo da encenação de ‘Gota d’água – No tempo’, a genialidade musical de Chico Buarque se revela em detalhes que enriquecem a narrativa. Uma sutil citação instrumental de ‘Cálice’, parceria com Gilberto Gil censurada em 1973, pontua o espetáculo, ressaltando a tentativa do sistema de calar a voz de Joana, a personagem central. A escolha não é aleatória, pois a essência da peça reside justamente nessa opressão.

Outras canções do cancioneiro de Chico Buarque, como ‘Atrás da porta’, parceria com Francis Hime, servem como trilha sonora para o desespero de Joana. A palavra escrita e cantada do artista carioca é o motor que impulsiona a ação, conectando o público à intensidade crescente da trama. A peça, que se inspira na tragédia de Eurípedes, foi originalmente encenada em 1975, com Bibi Ferreira no papel principal.

O Texto de Chico Buarque: Um Diálogo com o Tempo e a Sociedade

O texto de ‘Gota d’água’, com sua ação ambientada em uma comunidade carioca dos anos 1970, atravessou com sucesso as últimas cinco décadas. A permanência da estrutura opressiva do poder, que corrói a sociedade e silencia o povo, torna a peça ainda relevante. No entanto, sob uma ótica social e feminina, o texto de 1975 apresenta desafios, uma vez que a concepção de uma mulher de 44 anos como “acabada” ou “velha” não condiz mais com a realidade atual.

A decisão de manter a ação nos anos 1970 foi, portanto, uma escolha sábia para preservar a integridade da obra e seu impacto. A montagem atual é uma releitura da releitura de 2006, intitulada ‘Gota d’água – Breviário’, que já representou um marco na trajetória de Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi.

Uma Montagem Crua e Poderosa: O Poder do Despojamento Cênico

A encenação de ‘Gota d’água – No tempo’ aposta em uma estética crua e despojada. Uma simples cadeira ao fundo do palco simboliza o corrosivo poder capitalista. Antes mesmo do início da peça, o público é imerso no ambiente da fictícia Vila do Meio-Dia através de uma roda de samba vibrante, orquestrada por Marco França. Essa ambientação sonora inicial prepara o terreno para a intensidade da narrativa.

A ausência de microfones em cena realça a força vocal de Georgette Fadel, que sustenta canções como ‘Basta um dia’ e ‘Bem querer’, compostas por Chico Buarque para a trilha sonora original. Sua voz, amplificada apenas pela agonia e pelo desalento da personagem, ressoa com profunda emoção.

A Voz que Ecoa: O Grito de Joana Contra a Injustiça Social

Entre os temas da trilha sonora, como ‘Flor da idade’, cantada em coro, e citações instrumentais de sambas-canção como ‘Carolina’, a palavra de Chico Buarque tece uma narrativa arrebatadora. A ação ganha intensidade à medida que o cerco se fecha para Joana. As comadres da personagem funcionam como um coro grego moderno, cujos comentários ácidos expõem o ideário do povo brasileiro, muitas vezes subserviente.

Contudo, Joana não é uma figura passiva, e sua resistência desarticula o coro. Em sua essência, ‘Gota d’água – No tempo’ ecoa o grito desesperado e solitário de uma mulher tragada pelo sistema, que se nutre da injustiça social. Tudo se entrelaça na natureza da música e do texto de Chico Buarque, criando uma representação fidedigna da praça do povo, onde, mesmo em meio à tragédia, o samba persiste, mesmo quando “Joanas, Josés e Marias” são jogados aos leões por não se calarem.

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