Cooperativas de Seguros Chegam ao Brasil: Um Salto para a Contratação e Acesso a Proteção Patrimonial
O mercado de seguros no Brasil, ainda com um déficit considerável na proteção da população, está prestes a receber um novo impulso com a entrada das cooperativas de seguros. Após mais de uma década de discussões, a regulamentação que permite a constituição e o funcionamento dessas entidades entrou em vigor em maio, abrindo portas para um setor que hoje cobre apenas cerca de 30% da frota de veículos, por exemplo.
A Superintendência de Seguros Privados (Susep) já registra os primeiros interessados em apresentar seus projetos. No entanto, o caminho para a venda da primeira apólice é longo, envolvendo autorização, estruturação própria e demonstração de capacidade para gerir riscos. Clara Maffia, gerente-geral do Sistema OCB, explica que, diferentemente das cooperativas de crédito que já atuam como intermediárias, as novas cooperativas de seguros atuarão como a própria “indústria”, com os participantes sendo segurados e cooperados ao mesmo tempo.
Essa nova modalidade exige que cada cooperativa de seguros tenha existência independente, com CNPJ, capital e governança próprios, passando por todo o processo de autorização da Susep. A expectativa é que esse modelo não apenas amplie o acesso a seguros, mas também crie produtos mais adequados a grupos com necessidades e riscos específicos, conforme informações divulgadas pelo Sistema OCB.
Um Modelo Global de Sucesso Chega ao Brasil
O modelo de cooperativas de seguros e seguradoras mútuas já é consolidado internacionalmente, reunindo quase 320 milhões de segurados em todo o mundo. Segundo dados da Federação Internacional de Cooperativas e Seguros Mútuos (ICMIF), mais de 200 organizações em quase 80 países movimentaram mais de US$ 228 bilhões em prêmios em 2023.
Mudança de Cultura: Do Gasto à Proteção Essencial
A cultura do seguro no Brasil ainda caminha a passos lentos, com muitos enxergando a proteção como um gasto adicional e não como um preparo para imprevistos. Clara Maffia destaca a curiosa preferência pelo seguro auto em detrimento do seguro de vida, não por valorização do bem material, mas pela falta de reflexão e debate sobre a importância da proteção pessoal.
O cooperativismo surge como uma ferramenta para aproximar grupos com necessidades específicas, como taxistas, motoristas de aplicativo e entregadores, cujos veículos parados impactam diretamente o faturamento. Produtores rurais, transportadores e pequenos empresários também se beneficiarão de soluções customizadas.
Um “Oceano Azul” de Oportunidades para o Mercado de Seguros
O Sistema OCB vê nas novas cooperativas de seguros a chance de explorar um “grande oceano azul”, ampliando o mercado em vez de disputar clientes com as seguradoras tradicionais. A meta é alcançar aqueles que hoje ficam de fora por questões de preço, acesso ou falta de informação. A longa discussão para a criação deste marco legal envolveu associações de proteção, especialmente do setor automotivo, que buscavam um ambiente regulado e supervisionado.
A Susep e o Potencial de Expansão do Acesso a Seguros
A Susep enxerga um grande potencial para a expansão do acesso a seguros, especialmente em regiões e segmentos menos atendidos. A autarquia acredita que o modelo cooperativista pode complementar outras atividades já existentes e atender grupos com riscos semelhantes. O sucesso dependerá da robustez das cooperativas que surgirem, dos modelos de negócio adotados e da evolução da concorrência.
Consistência e Robustez: O Foco das Novas Cooperativas de Seguros
O primeiro desafio para as novas cooperativas será a sustentabilidade e a capacidade de gerir os riscos assumidos. O Sistema OCB prioriza a qualidade e a viabilidade das operações, buscando “boas cooperativas, que sejam viáveis e robustas”, segundo Clara Maffia. Há expectativa de que as primeiras autorizações ocorram em 2027, embora a Susep não estabeleça um prazo fixo.
Interessantemente, seguradoras e resseguradoras tradicionais já demonstram interesse em parcerias, podendo oferecer suporte inicial, tecnologia e rede de atendimento às novas cooperativas. A fase inicial tende a ser de colaboração, com um cenário de disputa direta ainda incerto.





