Ebola na RDC: Crise Global de Saúde Sob Escrutínio Após Retirada dos EUA da OMS
A República Democrática do Congo (RDC) enfrenta um surto de Ebola que se tornou o primeiro grande teste para a saúde global desde que os Estados Unidos se afastaram da Organização Mundial da Saúde (OMS) e desmantelaram a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Em um período alarmante de apenas 11 dias, a RDC registrou mais de mil casos e superou as 200 mortes, marcando um dos avanços mais rápidos de doenças infecciosas já documentados.
A gravidade da situação é agravada pela taxa de mortalidade média do Ebola, que atinge 50%. Especialistas apontam que, com o nível de monitoramento sanitário anterior, o alerta para a doença poderia ter sido emitido mais cedo, antes de significativas mudanças na estrutura de cooperação internacional em saúde.
A Uganda, vizinha da RDC, já confirmou sete casos em sua capital, Kampala, e decidiu fechar sua fronteira com a RDC nesta quarta-feira. Essa medida reflete a preocupação com a rápida disseminação do vírus. Conforme informação divulgada pelo The New York Times, citando fontes anônimas, o governo americano decidiu enviar cidadãos expostos ao Ebola para centros de quarentena no Quênia, uma decisão que contrasta com abordagens anteriores em epidemias de vírus letais, quando pacientes eram trazidos aos EUA para tratamento especializado. A intenção seria impedir o retorno de americanos expostos ao vírus ao país.
Impacto da Retirada Americana na Coordenação Global
A saída dos Estados Unidos da OMS resultou na perda da capacidade de coordenar esforços com órgãos multilaterais de saúde. Essa ausência não apenas afeta a capacidade de resposta global a crises, mas também representa um rombo financeiro considerável no orçamento da OMS, estimado em mais de meio bilhão de dólares. Paralelamente, a população americana se encontra sob maior risco devido à menor capacidade de vigilância e intervenção precoce em surtos internacionais.
Em 2025, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos EUA demitiu centenas de funcionários especializados na prevenção de epidemias e pandemias, conhecidos como “detetives de doenças”. Essa decisão, somada a outras controversas no Ministério da Saúde e Serviços Humanos, impulsionou renúncias em massa no CDC.
Ebola em Zonas de Conflito e Desafios de Prevenção
O atual surto de Ebola na RDC confirma as previsões de que a próxima crise de saúde global poderia emergir de uma zona de conflito. A ocupação do leste da RDC por milícias apoiadas por Ruanda desmantela as cadeias de autoridade em saúde pública, dificultando severamente as ações de prevenção, monitoramento e assistência médica. Essa situação é semelhante à observada em surtos anteriores na África, onde áreas com populações de refugiados deslocados por conflitos regionais apresentaram os maiores obstáculos ao combate da doença.
A cepa atual do Ebola, conhecida como Bundibugyo, que está se espalhando pela África, não possui vacina ou tratamento antiviral disponível. Isso reaviva o debate sobre a importância da prevenção baseada em recursos humanos e estruturas de saúde pública robustas, e não apenas em tecnologia para o desenvolvimento de vacinas. A rápida produção da vacina contra a Covid-19, embora um feito notável, não diminui a necessidade fundamental de sistemas de saúde pública bem estruturados e com pessoal qualificado.
Medidas de Contenção e Impacto Internacional
Diante do avanço do vírus, países como o Canadá e o México anunciaram a suspensão temporária da entrada de viajantes provenientes da RDC, Uganda e Sudão do Sul, coincidindo com a proximidade da Copa do Mundo. Um memorando revelado pela rede ABC indica que o CDC solicitou voluntários para realizar triagens em aeroportos que recebem viajantes da África Central, visando impedir a disseminação do vírus.
A situação atual ressalta a interconexão global da saúde e a necessidade de cooperação internacional robusta. A ausência de um ator chave como os Estados Unidos na coordenação de respostas a emergências de saúde pública deixa um vácuo significativo, aumentando a vulnerabilidade de todos os países, incluindo os próprios EUA.





