Cidades costeiras espanholas inovam com renaturalização para salvar praias da erosão e garantir futuro do turismo
O litoral espanhol, um dos pilares da economia do país, enfrenta um desafio crescente: a erosão costeira intensificada pelas tempestades de inverno. A cada ano, trechos inteiros de praias desaparecem, exigindo reconstruções emergenciais com areia e cimento, num ciclo dispendioso e pouco sustentável.
Diante desse cenário, municípios como Calafell, em Tarragona, e outros ao longo da costa, estão se rebelando contra as soluções tradicionais e apostando em estratégias de renaturalização. A meta é devolver a dinâmica natural às praias, permitindo que elas se regenerem e se adaptem às mudanças climáticas.
Esta nova abordagem busca um equilíbrio crucial entre a preservação ambiental e a vital indústria turística, que responde por uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) espanhol. Conforme informações divulgadas, o turismo representa cerca de 12,6% do PIB da Espanha, gerando mais de 200 bilhões de euros anualmente e sustentando 2,7 milhões de empregos.
O Dilema do Litoral Espanhol: Entre o Mar e o Concreto
Em áreas como Montgat, ao norte de Barcelona, a situação é alarmante. A linha do trem, que corre perigosamente próxima ao mar, vê o espaço entre os trilhos e as ondas diminuir a cada ano. As praias praticamente desapareceram, e as tempestades revelam rochas antes submersas sob vastos areais.
Moradores locais relatam a drástica mudança. Bruno Cambre, pescador de 37 anos, observa que, há poucos anos, as praias se estendiam por 500 a 700 metros, e hoje restam menos de 20. Ele teme pelo futuro das casas de pescadores, que correm o risco de serem engolidas pelo mar.
Ao sul de Barcelona, o problema é agravado pela urbanização excessiva. Calçadões e edifícios avançados encurralam as praias, tornando-as mais vulneráveis às ondas cada vez mais fortes e elevadas. Um relatório do Greenpeace de 2024 já alertava que o litoral espanhol corre riscos, com a iminência de perda de praias na próxima década.
Renaturalização: A Nova Fronteira na Defesa das Praias
A professora de geografia física da Universidade de Girona, Carla García Lozano, critica a ineficácia e o alto custo de soluções como o despejo contínuo de areia de outras regiões, que é rapidamente levada pelas tempestades, e a constante reparação de calçadões.
Em Calafell, uma cidade de 30 mil habitantes que depende fortemente do turismo, Lozano supervisiona um projeto pioneiro de regeneração há seis anos. A estratégia central é restaurar a dinâmica natural, permitindo que as praias se regenerem em períodos de bonança, após sofrerem erosão durante o inverno.
As ações em Calafell incluem a desconstrução de 800 metros quadrados de calçadão, a remoção de dois espigões subterrâneos, a instalação de barreiras de bambu para reter areia e a criação de dunas. Houve também a transferência de areia de áreas com excesso para locais com carência, sempre utilizando material local e de características semelhantes. O uso de drones para monitorar a evolução dos areais também se tornou uma ferramenta importante.
Os resultados são promissores. Em uma área de 4.500 metros quadrados, foram recuperados 1.000 metros cúbicos de areia, elevando a altura em alguns pontos em até um metro e meio. Outros municípios vizinhos também adotam medidas semelhantes, como a eliminação de estacionamentos à beira-mar e a remoção de quiosques.
Desafios e Equilíbrio: O Futuro das Praias Espanholas
Aron Marcos Fernández, vereador de meio ambiente em Calafell, confirmou o sucesso da demolição de parte do calçadão, que agora permite a presença de areia onde antes o mar batia diretamente. Ele defende um **equilíbrio entre a renaturalização e os usos turísticos**, ressaltando a importância social das praias para o município.
Em Sitges, outra localidade turística ao sul de Barcelona, a abordagem também foca na restauração de dunas e soluções naturais. No entanto, a remoção de seu calçadão centenário, parte integrante da história e da vida social da cidade, foi descartada pela prefeita Aurora Carbonell, que a considera uma ação difícil devido à sua importância para os cidadãos.
A questão das praias é, portanto, intrinsecamente ligada à economia espanhola. Com quase 100 milhões de turistas anuais atraídos pelo sol e areia, a perda de praias representaria um golpe devastador para o país, impactando diretamente o PIB e o emprego. A renaturalização surge como uma estratégia vital para garantir a sustentabilidade desses destinos e a prosperidade econômica da Espanha.





