Europa reage a choque chinês após anos de diplomacia cuidadosa, buscando novas ferramentas comerciais e alertando para riscos existenciais à sua indústria.
A União Europeia (UE) se encontra em um momento decisivo em suas relações com a China. Após anos de um arranjo tácito onde o comércio fluía com tensões diplomáticas administráveis, a situação atual exige uma reavaliação drástica, com o risco de consequências significativas para a economia e a indústria europeias.
Capitais europeias como França, Espanha, Itália, Holanda e Lituânia apresentaram um documento conjunto nesta semana, propondo a adoção de instrumentos comerciais mais rigorosos contra Pequim. A iniciativa inclui a implementação de tarifas, cotas e um mecanismo para forçar a diversificação de cadeias de suprimento em setores considerados sensíveis.
Essa articulação ocorre em um momento crucial, dias antes de um debate de orientação sobre a política chinesa convocado pela Comissão Europeia. Conforme divulgado pela newsletter Euro Radar da Folha, esta reunião é vista como uma das mais importantes sobre o tema nos últimos anos, sinalizando uma potencial mudança de postura do bloco.
Déficit Comercial e Perda de Empregos: Os Números da Tensão
Os dados que justificam o alarmismo são contundentes. O déficit comercial da UE com a China atingiu a cifra de €360 bilhões em 2025. Nos primeiros quatro meses de 2026, o superávit chinês com a Europa somou US$113 bilhões, um aumento em relação aos US$91 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior.
Entre 2019 e 2025, a indústria europeia sofreu a perda de um milhão de empregos, em grande parte devido à pressão exercida por produtos chineses com preços artificialmente baixos, subsidiados pelo Estado. Acusações de dumping se acumulam nos registros da Comissão Europeia, mas as respostas, até então, têm sido lentas.
UE Sinaliza Disposição para Ação: Ameaça “Existencial” à Indústria
O comissário europeu de Indústria, Stéphane Séjourné, afirmou categoricamente que a UE ampliará o uso de cotas e tarifas de forma mais sistemática para proteger setores inteiros. Ele descreveu a ameaça chinesa a setores como o químico, metalúrgico e de tecnologia limpa como “existencial”, com cerca de 29 milhões de empregos europeus em risco.
“Se não estabelecermos uma disputa de poder com a China, o que a faria reequilibrar a balança comercial a nosso favor? Nada!”, declarou Séjourné ao jornal Le Monde, alertando que a inação pode levar os países-membros a culparem Bruxelas por falharem em protegê-los em poucos anos.
Divisões Internas e o Paradoxo dos Investimentos Chineses
O principal desafio para a UE reside na coesão entre seus membros. Países como a Alemanha e a Espanha, historicamente mais reticentes a medidas protecionistas devido a fortes laços comerciais com a China, precisam embarcar na nova estratégia. Berlim, em particular, encontra-se em uma posição delicada, dividida entre a dependência de sua indústria automobilística do mercado chinês e a pressão de seus aliados europeus.
A dificuldade de Bruxelas em apresentar uma resposta unificada à concorrência chinesa alimenta o discurso de partidos de extrema-direita e extrema-esquerda, que capitalizam a narrativa de que as elites europeias negligenciaram a indústria nacional em favor de acordos comerciais que beneficiam grandes corporações.
Paradoxalmente, enquanto a Europa debate como conter a influência chinesa, a China aumenta seus investimentos no continente. Em 2025, foram €16,8 bilhões em investimentos diretos, o maior volume desde 2018. A Hungria se destaca como o principal destino, recebendo €3,9 bilhões e tornando-se um ponto estratégico para Pequim no mercado europeu.
“China Shock 2.0”: Uma Ofensiva Multidimensional
O cenário atual é caracterizado pelo que analistas chamam de “China shock 2.0”. Não se trata apenas da concorrência industrial vista há duas décadas, mas de uma ofensiva simultânea em tecnologia, infraestrutura e geopolítica. A China domina o fornecimento de minerais críticos, controla a produção de componentes eletrônicos e utiliza seus investimentos como ferramenta de influência dentro da própria UE.
Para o Brasil, essa escalada de tensões comerciais entre Europa e China implica em um redesenho dos fluxos de investimento e das cadeias de suprimento globais. Isso pode criar novas oportunidades ou desafios para países que buscam navegar entre os dois blocos sem compromissos definidos.
A questão central para a Europa, portanto, não é se o choque ocorrerá, mas se o bloco conseguirá agir de forma unida e decisiva antes que seja tarde demais.
“Os europeus nunca falaram a uma só voz com a China, que explora nossas divisões”, afirmou Stéphane Séjourné, comissário europeu de Indústria, em entrevista ao Le Monde em 28 de maio.
Guerra na Ucrânia e Crise Energética: Efeitos Colaterais Globais
No contexto da guerra na Ucrânia, a Rússia tem intensificado seus ataques, utilizando mísseis hipersônicos e drones em ofensivas massivas. Apesar da demonstração de força, a situação russa no campo de batalha é vista por analistas como incômoda, com perdas territoriais em abril, o primeiro mês desde o verão de 2024.
O lançamento de um míssil hipersônico Oreshnik, capaz de voar a até 13.000 km/h e de difícil interceptação, é interpretado mais como uma sinalização política para intimidar a Ucrânia e seus aliados ocidentais do que uma vantagem militar decisiva.
A crise no Oriente Médio, com o fechamento do estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás natural liquefeito global, agrava a situação. O diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, descreveu a crise atual como superior aos choques dos anos 1970 e da guerra na Ucrânia somados.
Os reflexos econômicos são evidentes: a inflação nos Estados Unidos atingiu 3,5% (índice PCE), o nível mais alto desde 2023, e na zona do euro, alcançou 3% em abril, com os preços de energia disparando 10,8%. A Comissão Europeia reduziu sua projeção de crescimento para a zona do euro a 0,9% em 2026.
A França, por exemplo, enfrenta crescimento zero e risco de recessão, com um pacote de subsídios a combustíveis de até €1,7 bilhão anunciado sem detalhamento de financiamento. O custo total da guerra para as finanças públicas francesas já chega a €6 bilhões.
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, propôs um “plano Messmer moderno”, inspirado no programa nuclear de 1973, para acelerar a eletrificação do país, argumentando que a questão climática se tornou uma questão de soberania.
Bancos centrais enfrentam o dilema entre combater a inflação e estimular o crescimento, uma escolha difícil com consequências incertas.
Brasil e OCDE: Uma “Birra Infantil” que Prejudica o País
Enquanto a Europa debate sua política para a China e lida com crises globais, o Brasil mantém uma postura de distanciamento em relação à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Fontes na OCDE descrevem a postura brasileira como uma “birra infantil”, perplexas com a relutância em aderir à organização.
O argumento oficial brasileiro, que mistura desconfiança ideológica com a retórica Sul-Sul, considera a OCDE um “clube de países ricos” incompatível com a priorização do Brics. No entanto, países como México, Chile, Colômbia e Costa Rica já são membros, e a Argentina manifestou interesse em retornar.
O processo de aproximação do Brasil com a OCDE iniciou-se em 1997, ganhando força em 2007, quando o país foi convidado a ser um “Parceiro Chave”. O governo Michel Temer deu início ao processo formal de adesão, posteriormente congelado.
Em um cenário global onde instituições multilaterais são testadas, a OCDE tem se fortalecido. A decisão do Brasil de permanecer à margem não é neutralidade, mas uma escolha com consequências estratégicas significativas.





