Por que alguns destinos querem deixar de ser Patrimônio da Humanidade?
A lista de Patrimônios da Humanidade da UNESCO, que celebra locais de valor cultural e natural excepcional, muitas vezes é vista como um selo de prestígio e garantia de preservação. No entanto, para alguns destinos, o reconhecimento internacional tem se tornado um fardo, levando-os a desejar o anonimato e a remoção da cobiçada lista.
Enquanto muitos lugares sonham em ser incluídos no seleto grupo, outros enfrentam consequências inesperadas. O turismo desenfreado e a pressão sobre as comunidades locais são alguns dos motivos que levam certas localidades a questionarem os benefícios de serem Patrimônio da Humanidade.
A busca pela preservação, paradoxalmente, pode gerar novos desafios. A atenção global, se não bem gerenciada, pode descaracterizar a essência do que tornou o lugar especial, criando um dilema entre o reconhecimento e a manutenção da identidade local. Conforme informação divulgada pela fonte, é raro que um patrimônio da humanidade realmente deixe de sê-lo aos olhos da UNESCO, mas o problema do turismo excessivo tem sido reconhecido pela organização.
O Preço da Fama: Overtourism e Conflitos Locais
Um dos principais fatores que levam destinos a quererem se desvincular do título de Patrimônio da Humanidade é o fenômeno do overtourism, ou turismo em excesso. Locais como a cidadela de Machu Picchu, no Peru, e o Monte Fuji, no Japão, já implementam cotas de visitantes para tentar controlar o fluxo. Contudo, em locais com menor infraestrutura, a situação se agrava.
O vilarejo de Vlkolínec, na Eslováquia, um patrimônio desde 1993, recebe 100 mil visitantes anualmente, apesar de ter apenas 20 moradores permanentes. Na Tanzânia, o parque de Ngorongoro, incluído em 1979, enfrenta pedidos de remoção por afetar comunidades pastoris ancestrais. Nesses casos, a crítica é que a atenção internacional pouco contribui para a preservação, enquanto o fluxo de turistas impacta negativamente a rotina e o modo de vida local.
Gentrificação e Descaracterização: A Perda da Essência
Em cidades e bairros mais povoados, o reconhecimento como Patrimônio da Humanidade pode desencadear problemas como a gentrificação, onde moradores locais são expulsos devido ao aumento dos preços. Além disso, há a substituição de residências por estabelecimentos voltados exclusivamente para turistas, como lojas de souvenirs, hotéis e restaurantes, descaracterizando o local.
Outro conflito surge em torno dos limites da preservação. Moradores e autoridades debatem até onde é possível renovar ou adaptar estruturas sem violar as diretrizes da UNESCO, ao mesmo tempo em que buscam atender às necessidades da comunidade que continua a habitar o local. A preservação de um patrimônio deve, idealmente, coexistir com a vida de seus habitantes.
A Resposta da UNESCO e os Poucos Casos de Exclusão
Apesar dos protestos e dos desafios, a exclusão de um destino da lista de Patrimônios da Humanidade é rara. Até o momento, a UNESCO removeu apenas três locais: um em Omã, um na Alemanha e, mais recentemente, Liverpool, na Inglaterra, em 2021. Geralmente, essas exclusões ocorrem por ações governamentais que reduzem áreas protegidas ou promovem reformas que descaracterizam o patrimônio.
Reconhecendo a gravidade do turismo excessivo, a UNESCO passou a orientar os candidatos a patrimônios a apresentarem planos robustos para a gestão de visitantes e a proteção de áreas sensíveis. A entidade, que antes focava menos na presença de turistas, agora vê o turismo como um desafio a ser gerenciado, além de uma oportunidade.




